Crise da dívida na Europa ameaça Brasil e emergentes
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O ano de 2026 já vinha marcado por uma sequência de incertezas globais: guerras, tarifas, El Niño, alta do petróleo, inflação e juros elevados pelos bancos centrais. Agora, um novo foco de risco emerge no radar dos investidores: o endividamento de alguns dos principais países da Europa. A situação lembra o cenário de 11 anos atrás, quando uma onda de vendas de títulos da região elevou as taxas a níveis historicamente altos.

Naquela ocasião, o pânico se espalhou e os custos de financiamento subiram tanto que a União Europeia precisou resgatar Grécia, Irlanda e Portugal, a um custo de quase € 280 bilhões. Desta vez, porém, o epicentro não está nas nações periféricas da Zona do Euro, mas na segunda maior economia do bloco: a França.

França no centro da nova crise

A dívida pública francesa atingiu € 3,5 trilhões, aproximadamente 119% do PIB estimado para 2026. O déficit orçamentário deve voltar a ultrapassar 5% do PIB neste ano, frustrando a meta do governo. Projeções da Comissão Europeia indicam que o déficit pode alcançar 5,7% do PIB no próximo ano, se nenhuma medida for tomada.

O prêmio de risco exigido pelos investidores para carregar títulos franceses em relação aos alemães atingiu o patamar mais elevado desde a crise de 2011. Com isso, a taxa dos títulos franceses alcançou o maior nível em 25 anos. A escalada ocorre em meio à disparada dos preços do petróleo, provocada pelos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia.

Ondas de choque para emergentes

O problema na Europa pode criar ondas de choque capazes de abalar mercados mais vulneráveis. Historicamente, a escalada das taxas levou investidores a deixarem mercados mais arriscados, como os emergentes. Em 2011, a reversão do fluxo de capital resultou em subida dos juros, alta do dólar e do euro, além de pressões inflacionárias nessas regiões.

Analistas destacam que algumas nações estão mais vulneráveis devido à expansão de seus déficits fiscais. Entre esses mercados está o Brasil. “A liquidez pode se deteriorar muito mais rápido do que os fundamentos econômicos”, alertou Lyndon Man, co-líder de crédito com grau de investimento global da Invesco, em Londres.

Brasil em corrida contra o tempo

O Brasil continua sendo um mercado crucial para se monitorar. O país enfrenta uma espécie de corrida contra o tempo: um ajuste fiscal seria a única forma de evitar um contágio potencialmente mais forte, que levaria a mais aumento dos juros e a uma desvalorização do real. O desafio, segundo Man, é saber se “a melhora no humor após os recentes desdobramentos políticos será acompanhada, na prática, por uma execução fiscal crível”.

O déficit fiscal nominal do Brasil subiu para quase 10% do PIB, enquanto a dívida pública ultrapassou os 80%, deixando os investidores cada vez mais apreensivos. Ainda assim, os ativos brasileiros avançaram fortemente na semana passada, após o candidato mais bem-visto pelo mercado, Flávio Bolsonaro, assumir a liderança sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno da eleição presidencial.

Lições da crise de 2011

A crise da dívida europeia de 15 anos atrás, que se intensificou em agosto de 2011, elevou a aversão global ao risco. Investidores buscaram ativos mais seguros, deixando títulos e moedas emergentes vulneráveis a saídas repentinas de capital. O spread pago pelos títulos em dólares de países em desenvolvimento em relação aos Treasuries americanos chegou a 447 pontos-base em outubro daquele ano, patamar superado apenas em 2020, no auge da pandemia de Covid.

Nessa nova crise da dívida, moedas e títulos de economias da Europa Central e Oriental também parecem potencialmente em risco, segundo a Macro Hive Ltd., empresa global de pesquisa macroeconômica. A Polônia, em particular, tem enfrentado pressões fiscais recentes, levando a Moody’s Ratings a rebaixar a nota de crédito soberano do país em um nível, para A3, em setembro.

O cenário europeu adiciona mais uma camada de incerteza para os mercados globais. Enquanto a França lida com seu desequilíbrio fiscal, os países emergentes observam atentos, cientes de que a história pode se repetir.

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