O avanço acelerado da Inteligência Artificial tem forçado organizações públicas e privadas a repensarem suas dinâmicas de trabalho. Preocupadas com a geração de textos semelhantes aos humanos em segundos no ambiente corporativo, muitas instituições estão estabelecendo regras rígidas sobre como e quando usar Transformadores Generativos Pré-treinados (GPTs).
É nesse cenário que se insere o artigo “ ‘Chat-Up’: o papel da competição na disposição dos burocratas de nível de rua em quebrar regras tecnológicas e usar GPTs “, publicado na Public Administration Review pelas pesquisadoras da Escola de Administração de Empresas de S…
A pesquisa mergulha nas intenções dos chamados burocratas de nível de rua (servidores que lidam diretamente com o público) de utilizar ferramentas como o ChatGPT, mesmo quando suas organizações públicas proíbem expressamente o seu uso, um fenômeno classificado no estudo como quebra de regras tecnológicas. Utilizando um design exploratório de métodos mistos, que combinou a realização de grupos focais com 14 participantes e um experimento de pesquisa mais amplo com 279 indivíduos, as autoras conseguiram mapear as motivações por trás dessa desobediência institucional.
Os resultados demonstram de forma clara que esses burocratas pretendem quebrar as regras e utilizar GPTs quando percebem que seus concorrentes do setor privado têm acesso irrestrito a essas ferramentas de inteligência artificial. Essa descoberta levanta discussões profundas sobre as formas híbridas de gestão pública contemporânea e o “momento prometeico” trazido pelos GPTs. O estudo, classificado como de alto impacto (AJG 4) e vinculado ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), destaca o desafio dos governos em equilibrar a inovação tecnológica com a segurança da informação.
Contexto da pesquisa sobre IA no setor público
O estudo conduzido pelas pesquisadoras da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) parte de uma constatação empírica: a adoção de ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, tem ocorrido de maneira desigual entre os setores. Enquanto empresas privadas muitas vezes incentivam o uso dessas tecnologias para ganhar eficiência, órgãos públicos frequentemente impõem restrições por questões de segurança, privacidade e controle da informação. Essa assimetria cria um terreno fértil para o surgimento de comportamentos desviantes entre servidores que se sentem em desvantagem competitiva.
Os burocratas de nível de rua são aqueles profissionais que atuam na linha de frente do atendimento ao cidadão, como assistentes sociais, fiscais, atendentes de serviços públicos e professores da rede pública. Esses trabalhadores, segundo a literatura especializada, possuem discricionariedade considerável na execução de suas tarefas diárias, o que os torna particularmente suscetíveis a adotar atalhos tecnológicos mesmo quando as normas internas proíbem. A pesquisa da FGV investiga justamente esse ponto de tensão entre a autonomia profissional e a obediência institucional.
A metodologia empregada combinou abordagens qualitativas e quantitativas. Na etapa qualitativa, foram realizados grupos focais com 14 participantes, permitindo captar percepções, justificativas e racionalizações sobre o uso de GPTs. Na etapa quantitativa, um experimento de pesquisa com 279 indivíduos testou hipóteses específicas sobre a influência da concorrência percebida. Essa triangulação metodológica confere robustez aos achados e permite inferências mais seguras sobre o fenômeno.
Motivações para quebrar regras tecnológicas
Os resultados do estudo indicam que a intenção de usar GPTs proibidos não é aleatória, mas fortemente influenciada pela percepção de concorrência externa. Quando os burocratas acreditam que profissionais do setor privado têm acesso irrestrito a essas ferramentas, a probabilidade de quebrarem as regras aumenta significativamente. Esse achado sugere que a motivação não é meramente técnica ou de conveniência, mas também simbólica: os servidores buscam nivelar o campo de jogo e não se sentirem em desvantagem na prestação de serviços.
Além da concorrência, outros fatores podem estar em jogo, embora as claims não detalhem todos eles. A pressão por produtividade, a sobrecarga de trabalho e a percepção de que as regras são excessivamente rígidas ou desatualizadas podem contribuir para a racionalização da desobediência. No entanto, o estudo destaca especificamente o papel da competição como gatilho central, o que representa uma contribuição original para a literatura sobre comportamento burocrático e adoção de tecnologia.
É importante notar que a quebra de regras tecnológicas não implica necessariamente má-fé ou intenção de causar dano. Muitos servidores podem justificar o uso de GPTs como uma forma de melhorar o atendimento ao público, acelerar processos e reduzir erros. Ainda assim, a violação de normas institucionais levanta questões sobre accountability, transparência e os limites da discricionariedade no setor público.
Implicações para a gestão pública híbrida
O estudo da FGV insere-se em um debate mais amplo sobre as transformações da administração pública na era digital. A expressão “momento prometeico” utilizada pelas autoras remete à ideia de que os GPTs representam uma força transformadora com potencial tanto para o bem quanto para o mal, exigindo novas formas de governança. As organizações públicas, tradicionalmente mais lentas na adoção de inovações, enfrentam o desafio de equilibrar os benefícios da IA com a necessidade de proteger informações sensíveis e manter a confiança dos cidadãos.
Uma das implicações práticas apontadas pela pesquisa é a necessidade de revisão das políticas de uso de tecnologia no setor público. Em vez de simplesmente proibir, os gestores poderiam considerar a criação de diretrizes claras que permitam o uso responsável de GPTs em contextos específicos, com salvaguardas adequadas. Essa abordagem híbrida poderia reduzir a tentação de quebrar regras, ao mesmo tempo em que aproveita o potencial de eficiência dessas ferramentas.
Outra implicação relevante diz respeito à formação e ao treinamento dos servidores. Se a concorrência percebida é um fator-chave, campanhas de comunicação interna que expliquem os motivos das restrições e ofereçam alternativas viáveis podem mitigar a desobediência. Além disso, o envolvimento dos próprios burocratas na elaboração das normas pode aumentar a legitimidade percebida e reduzir a resistência.
Desafios de segurança e o ODS 16
O estudo está vinculado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16, que trata de paz, justiça e instituições eficazes. Essa vinculação não é acidental: o uso não autorizado de IA generativa no setor público pode comprometer a segurança da informação, a privacidade dos cidadãos e a integridade dos processos decisórios. Dados sensíveis inseridos em plataformas de terceiros podem vazar ou ser utilizados de maneira inadequada, gerando riscos legais e reputacionais para as instituições.
A classificação do artigo como de alto impacto (AJG 4) reforça a relevância acadêmica e prática do tema. A publicação na Public Administration Review, um dos periódicos mais prestigiados da área de administração pública, indica que a comunidade científica reconhece a importância de compreender como os servidores reagem às novas tecnologias e às regras que as governam. O estudo contribui para um corpo crescente de evidências sobre os efeitos da IA no trabalho e na governança.
Os governos, portanto, enfrentam um dilema complexo: como fomentar a inovação e a modernização dos serviços públicos sem abrir mão da segurança e do controle? A resposta não é simples, mas a pesquisa da FGV oferece pistas valiosas ao mostrar que a proibição pura e simples pode ser contraproducente, incentivando justamente o comportamento que se busca evitar.
Perspectivas futuras e recomendações
Embora as claims não detalhem recomendações específicas das autoras, é possível inferir algumas direções a partir dos achados. Primeiro, a necessidade de um diálogo mais aberto entre gestores e servidores sobre o uso de IA. Segundo, a importância de políticas flexíveis que considerem o contexto e a natureza das tarefas. Terceiro, o investimento em infraestrutura própria de IA que atenda às necessidades dos burocratas sem depender de plataformas externas não autorizadas.
O estudo também abre caminho para pesquisas futuras que investiguem outros fatores moderadores, como o tipo de organização, o nível hierárquico, a cultura organizacional e as diferenças entre países. A comparação entre setores público e privado, bem como entre diferentes níveis de governo, poderia enriquecer ainda mais a compreensão do fenômeno. Além disso, estudos longitudinais poderiam acompanhar a evolução das atitudes e comportamentos ao longo do tempo, à medida que as tecnologias e as normas evoluem.
Em suma, a pesquisa da FGV lança luz sobre um aspecto pouco explorado da revolução da IA: a disposição dos servidores públicos em desafiar regras para não ficarem para trás. Os resultados mostram que a competição percebida com o setor privado é um motor poderoso dessa desobediência, o que exige respostas inovadoras por parte dos gestores públicos. O equilíbrio entre inovação e segurança permanece um desafio central para as instituições que buscam cumprir o ODS 16 e garantir serviços públicos eficazes e confiáveis.
📄 Documentos Relacionados
- 📎 aqui! (relatorio-de-impacto_impact-report-2025_2026.pdf)
Fonte
- i9brasil.com.br
- Escola de Administração de Empresas de São Paulo (eaesp.fgv.br)
- aqui! (portal.fgv.br)
