O dólar fechou abaixo dos R$ 5 na segunda-feira (5), impulsionado pelo otimismo do mercado financeiro após o resultado do primeiro turno das eleições. E as criptomoedas pareadas à moeda americana também recuaram, já que acompanham a cotação da verdinha. A USDT e a USDC, as duas maiores stablecoins do setor, são negociadas a R$ 4,99 na manhã desta terça-feira (6) em bancos e exchanges de criptomoedas. Com a cotação em patamar mais baixo, surge a pergunta: vale a pena comprar stablecoins atreladas ao dólar?
Oportunidade de dolarização em momento favorável
“O dólar abaixo de R$ 5, próximo da mínima do ano, em um momento em que ainda há incertezas relevantes pela frente, é algo bom para quem quer dolarizar”, diz Thaise Saeter Rytenband, sócia e fundadora da Convex Research e do multifamily office Convex Wealth. A especialista destaca que a cotação atual representa uma janela para quem busca exposição à moeda americana. No entanto, ela alerta que isso não significa comprar dólar de uma só vez.
Uma estratégia possível é fazer compras regulares ao longo do ano, em vez de tentar acertar o melhor momento para entrar. A estratégia é conhecida como dollar-cost averaging (DCA, na sigla em inglês).
“A compra em etapas ajuda a diluir o preço de entrada”, diz Thaise. O DCA reduz o risco de aplicar todo o capital em um único ponto da curva cambial. Por exemplo, um investidor pode dividir o valor total em 12 aportes mensais, comprando stablecoins independentemente da cotação. Dessa forma, o preço médio tende a refletir as oscilações do período, evitando o impacto de uma alta repentina. A prática é especialmente útil em mercados voláteis, como o de criptomoedas.
Assim, mesmo com o dólar abaixo de R$ 5, o investidor não precisa se apressar para entrar de uma vez.
Por que ter dólar na carteira?
Ter parte do patrimônio em dólar costuma estar entre as recomendações de analistas porque a variação da moeda americana afeta os preços de produtos e serviços consumidos pelos brasileiros, além de permitir acesso a ativos e mercados internacionais. A dolarização funciona como proteção contra a desvalorização do real e contra a inflação doméstica. Além disso, ativos em dólar podem oferecer diversificação geográfica, reduzindo o risco-país. Para quem planeja viajar, estudar fora ou fazer compras internacionais, manter reservas em moeda forte é uma forma de planejamento financeiro.
As stablecoins surgem como alternativa digital a esse processo.
No entanto, um dos pontos levantados é a diferença entre os juros dos EUA e do Brasil. Há títulos do Tesouro americano (as treasuries) pagando cerca de 5% ao ano, enquanto no Brasil a taxa está em 13,75% ao ano. “Ou seja, você está com o seu dinheiro parado em dólar, você está assumindo uma perda já de quase 10% por ano”, diz. Esse custo de oportunidade é relevante: manter dólar parado, seja em papel ou stablecoin, significa abrir mão do rendimento da renda fixa local.
Por isso, a decisão de dolarizar deve considerar o horizonte de tempo e os objetivos do investidor.
Vantagens das stablecoins no câmbio digital
“A principal vantagem da stablecoin é a acessibilidade. O investidor compra dólar digital em minutos, com valores fracionados, liquidez 24 horas por dia, sete dias por semana, e spread bem inferior ao do câmbio tradicional”, afirma. Diferentemente da compra de dólar em casa de câmbio ou banco, as stablecoins podem ser adquiridas por qualquer pessoa com acesso à internet, sem burocracia. O spread, que é a diferença entre o preço de compra e venda, costuma ser menor nas exchanges de criptomoedas.
Além disso, a possibilidade de fracionar a compra permite que pequenos investidores comecem com valores baixos, como R$ 50 ou R$ 100. A liquidez contínua também é um diferencial: é possível converter stablecoins em reais a qualquer momento, inclusive fins de semana e feriados.
Essa praticidade atrai tanto iniciantes quanto investidores experientes. As stablecoins eliminam intermediários tradicionais, como correspondentes bancários, e reduzem custos de transação. Para quem precisa enviar dinheiro ao exterior, por exemplo, o uso de USDT ou USDC pode ser mais rápido e barato que uma transferência internacional convencional. Contudo, é essencial entender que se trata de um criptoativo, não de moeda fiduciária em conta bancária. A segurança depende da solidez da empresa emissora e da transparência das reservas.
Riscos envolvidos na compra de dólar digital
Mas há riscos. O principal, segundo Mendes, é que o investidor não está comprando dólares em uma conta bancária, mas um criptoativo emitido por uma empresa que promete manter reservas para sustentar seu valor. Ou seja, a stablecoin é uma representação digital do dólar, lastreada por ativos que a empresa emissora afirma possuir. Se a empresa não cumprir essa promessa, o valor da stablecoin pode se descolar do dólar. Além disso, há riscos regulatórios, pois o setor de criptomoedas ainda carece de regras claras em muitos países.
A custódia dos ativos também exige cuidados: se o investidor não proteger suas chaves privadas, pode perder o acesso aos fundos.
“Mas qual o risco real disso? Eu diria que mínimo. Em 16 a 17 anos de mercado cripto, em nenhum momento essas moedas (as criptos de dólar) se mostraram fracas ou se mostraram insolventes”, diz. A declaração reflete a resiliência histórica das principais stablecoins, como USDT e USDC, que mantiveram a paridade com o dólar mesmo em crises. No entanto, eventos como o colapso da stablecoin algorítmica TerraUSD em 2022 mostram que nem todas as stablecoins são iguais.
Por isso, especialistas recomendam optar por stablecoins com lastro em ativos tradicionais e auditorias regulares. A fonte não detalhou quais stablecoins específicas foram analisadas, mas as duas maiores do mercado são as mais citadas.
Como decidir se vale a pena comprar agora
Diante do cenário, a decisão de comprar stablecoins com o dólar abaixo de R$ 5 depende do perfil e dos objetivos de cada investidor. Para quem busca proteção cambial de longo prazo, o momento pode ser oportuno, desde que a compra seja feita de forma gradual, como sugere o DCA. Para quem tem perspectiva de curto prazo, o custo de oportunidade dos juros brasileiros pode pesar. É fundamental avaliar a proporção do patrimônio a ser dolarizada, evitando concentração excessiva.
Também é importante considerar a segurança da plataforma utilizada e a reputação da stablecoin escolhida.
Em resumo, as stablecoins oferecem uma porta de entrada acessível ao dólar digital, com vantagens de liquidez e custo. Contudo, não estão isentas de riscos, especialmente relacionados à confiança na emissora. O investidor deve ponderar o diferencial de juros, que torna o dólar parado menos atrativo em relação à renda fixa brasileira. A recomendação de especialistas é clara: diversificar, comprar aos poucos e manter uma visão de longo prazo. Assim, mesmo com incertezas políticas e econômicas, a dolarização via stablecoins pode ser uma ferramenta válida, desde que usada com cautela.
Fonte
- investnews.com.br
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