IA na saúde exige rever processos e liderança
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O avanço da inteligência artificial na saúde tem impulsionado debates sobre como as organizações podem manter a dimensão humana no cuidado. Kleberson, assessor executivo da Província Camiliana Brasileira e coordenador nacional do CADIS (Camilian Disaster Service), discutiu os efeitos da transformação tecnológica sobre as relações de cuidado e os desafios para a gestão das organizações de saúde. A apresentação ocorreu em um encontro cuja data e local não foram detalhados pela fonte.

Para o especialista, a capacidade de criar novas ferramentas não elimina necessidades humanas básicas. “Nossa capacidade de criar engenhocas é gigantesca, mas a gente continua carecendo do olho no olho, de um ‘por favor’, de um ‘por gentileza’”, afirmou. A expectativa de que o avanço tecnológico proporcionaria mais qualidade de vida e tempo livre acompanha o desenvolvimento da tecnologia há décadas, mas Kleberson questiona essa premissa diante das demandas emocionais do cuidado.

Humanização depende de decisões organizacionais

Kleberson utilizou o conceito de VUCA — acrônimo em inglês para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade — para descrever o ambiente de mudanças em que as organizações estão inseridas. A velocidade de adoção de novas tecnologias ajuda a dimensionar essa transformação. Durante a apresentação, o especialista comparou o tempo necessário para diferentes tecnologias alcançarem grandes bases de usuários, citando exemplos como rádio, televisão, internet, Instagram, Pokémon Go e ChatGPT.

Nesse cenário, a humanização deixa de ser apenas uma iniciativa isolada e passa a depender de decisões organizacionais relacionadas à cultura, à gestão de pessoas e ao desenho dos processos. A adoção de novas ferramentas, nesse sentido, não envolve apenas investimento ou infraestrutura, mas também mudanças na forma como as equipes trabalham, tomam decisões e se relacionam.

Três frentes para incorporar a dimensão humana

Na avaliação de Kleberson, três frentes podem orientar as organizações que buscam incorporar a dimensão humana à gestão: processos, liderança e projetos. Um dos desafios está em transformar missão, visão e valores institucionais em comportamentos concretos. Para o especialista, não basta estabelecer princípios corporativos se eles não forem considerados nos processos de recrutamento, seleção, treinamento, avaliação de desempenho e desligamento.

A lógica exige que os valores da organização sejam traduzidos em expectativas claras de comportamento e incorporados ao ciclo de gestão das pessoas. Kleberson também defende que a responsabilidade pela gestão de pessoas não deve ficar restrita ao RH. Para ele, gestores de diferentes níveis hierárquicos precisam responder por quatro dimensões: orçamento; projetos e processos; pessoas; e cultura e clima organizacional.

Liderança ampliada diante da tecnologia

A abordagem amplia o papel da liderança diante da transformação tecnológica. A adoção de novas ferramentas, nesse sentido, não envolve apenas investimento ou infraestrutura, mas também mudanças na forma como as equipes trabalham, tomam decisões e se relacionam. A terceira frente envolve transformar a humanização em projetos concretos. Segundo Kleberson, iniciativas voltadas à formação e ao bem-estar das equipes podem contribuir para a sustentabilidade das instituições, desde que sejam estruturadas e acompanhadas por indicadores.

Projetos concretos e resultados assistenciais

Um exemplo apresentado pelo especialista foi um programa de voluntariado mantido há 17 anos por um grande hospital público brasileiro, com mais de 2 mil leitos e cerca de 220 voluntários. De acordo com o estudo apresentado durante o encontro, atividades como contação de histórias, pet terapia e transporte de macas foram avaliadas em relação ao tempo de internação e à taxa de infecção hospitalar. Segundo Kleberson, os resultados apontaram redução nos dois indicadores.

Além do possível impacto assistencial, o programa também permite redistribuir atividades de apoio. Ao assumir determinadas tarefas, os voluntários podem liberar enfermeiros e técnicos de enfermagem para atividades que exigem sua formação profissional. O especialista também relatou um episódio em que um voluntário identificou fragilidades no controle de acesso do hospital ao conseguir entrar sem identificação por diferentes áreas, incluindo o necrotério. O episódio levou o problema ao conhecimento da gestão e resultou na adoção de providências.

Pessoas no centro da estratégia

O caso exemplifica outra função que projetos dessa natureza podem exercer: aproximar a organização de diferentes perspectivas sobre a experiência dentro do hospital e identificar problemas que nem sempre são percebidos pelos processos formais de gestão. A discussão apresentada por Kleberson parte de uma premissa de gestão: tecnologias e estruturas organizacionais só produzem resultados por meio das pessoas que as utilizam.

Ao citar o autor americano Gary Hamel, o especialista defendeu uma mudança na lógica tradicional das organizações, colocando as pessoas no centro da estratégia e utilizando as estruturas organizacionais como meio para gerar resultados e impacto social. “O médico vai poder olhar para a gente e perguntar: Como você está lidando com a sua finitude?”, questionou Kleberson, reforçando a necessidade de manter o cuidado humano mesmo com o avanço da IA na saúde.

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