O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, prometeu nesta quarta-feira, perante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, que o planalto do Golã continuará a ser território sírio, apesar das reivindicações de Israel sobre a região de importância estratégica. “Qualquer tentativa que viole a nossa soberania, que viole o direito internacional, será travada. O Golã continuará a ser território sírio”, afirmou al-Sharaa na reunião de líderes mundiais. A declaração reforça a posição de Damasco em um dos conflitos territoriais mais longevos do Oriente Médio.
Contexto histórico e posição internacional
O planalto do Golã foi capturado por Israel à Síria em 1967 e anexado unilateralmente em 1981. A ONU mantém que o território é sírio sob ocupação militar israelita, tendo declarado a anexação “nula e sem efeito”. Em julho, o secretário-geral António Guterres reiterou que o Golã faz parte da Síria e classificou a ocupação israelita como “totalmente inaceitável”. Durante décadas, os Estados Unidos foram o único país a reconhecer a anexação, até que o novo governo colombiano de direita radical, em agosto, também reconheceu a reivindicação israelita.
Essa mudança amplia o isolamento diplomático da posição síria, mas não altera o consenso majoritário na comunidade internacional.
Al-Sharaa aproveitou sua segunda intervenção na tribuna da ONU desde que derrubou o antigo ditador Bashar al-Assad numa ofensiva relâmpago, em dezembro de 2024, para denunciar os ataques repetidos de Israel contra seu país. “Israel está a lançar ataques contra a Síria. Houve 500 ataques aéreos, mais de 1200 incursões e 300 detenções. Isto contraria a orientação que estamos a ver a nível global”, disse. O presidente sírio acrescentou que a postura israelense “faz lembrar uma era que julgávamos há muito ultrapassada”.
Críticas a Trump e ironia sobre Nova Jérsia
Em um momento de ironia, al-Sharaa relembrou uma conversa com o presidente norte-americano, Donald Trump. “Porque não dá Nova Jérsia aos israelitas?”, lembrou ter perguntado. “Não é dono do planalto do Golã para lho dar, mas é dono de Nova Jérsia, e creio que Nova Jérsia está cheia de democratas, que não votam em Trump”, ironizou. “Portanto, será bom dá-la aos israelitas.
Pelo menos isso é algo que lhe pertence.” A fala foi uma resposta à decisão de Trump, que em 2019 reconheceu formalmente a soberania israelita sobre o Golã durante seu primeiro mandato.
Al-Sharaa também mencionou uma conversa com Brett McGurk, que serviu em quatro administrações norte-americanas, incluindo a de Trump. “O Golã tem o seu povo”, disse al-Sharaa a McGurk, sublinhando que nem o Presidente sírio nem o dos EUA têm legitimidade para ceder o território. A declaração reforça a soberania popular como princípio inegociável para Damasco.
Negociações e ataques recentes
No painel do Atlantic Council, al-Sharaa afirmou que a Síria e Israel realizaram várias rondas de conversações diretas, algumas mediadas pelos EUA, e tinham chegado a “quase 90% dos entendimentos” antes de Israel recuar ou introduzir novas condições. “Não é adequado que o que aconteceu em 7 de outubro dite a política israelita para a Síria”, afirmou. “Israel precisa de mudar a sua política, porque está a criar problemas à sua volta para manter a sua segurança.”
O presidente sírio acusou Israel de ter bombardeado duas vezes o palácio presidencial sírio e de ter visado aeroportos desde que chegou ao poder, em dezembro de 2024. “Desde a queda do antigo regime, Israel tem repetido os seus ataques e agressões contra a Síria. Está a ocupar novos territórios, zonas que foram ocupadas depois de 8 de dezembro de 2024”, disse al-Sharaa. “Isto vai trazer segurança aos cidadãos israelitas? Julgo que o problema está em Israel, não na Síria.”
Al-Sharaa retirou seu nome de guerra, Abu Mohammad al-Jolani, que remetia às origens da família no Golã, sinalizando uma nova fase política. Ainda assim, a questão do Golã permanece central em sua agenda. A fonte não detalhou se haverá novas rodadas de negociação ou ações diplomáticas concretas após o discurso na ONU.
