A possível fusão entre Afya e Yduqs, duas das maiores empresas de ensino superior do Brasil, foi analisada pelo Itaú BBA em relatório divulgado recentemente. O banco aponta que os portfólios das companhias são complementares em nível nacional, mas identifica pontos de atenção na análise de concentração de mercado, especialmente no segmento de Medicina. A avaliação surge em um momento em que o setor educacional passa por consolidação e os investidores buscam entender os desdobramentos regulatórios e financeiros de uma eventual combinação.
Complementaridade nacional com sobreposições pontuais
Segundo o BBA, a sobreposição direta dos portfólios acontece em poucas cidades, embora a proximidade entre campi aumente quando se amplia o raio de influência. Essa característica reduz, em tese, o risco de concentração excessiva em âmbito nacional, mas exige análise detalhada em mercados locais. A complementaridade é vista como um ponto positivo para a operação, pois permitiria ganhos de escala sem grandes redundâncias geográficas. No entanto, o banco ressalta que a análise regulatória dependerá da estrutura efetiva da operação e da concorrência em cada mercado local.
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Cade deve avaliar concorrência por curso e cidade
Um dos pontos mais acompanhados pelo mercado em uma eventual fusão entre Afya e Yduqs é a análise do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Na avaliação do Itaú BBA, a expectativa é de que o regulador analise a concorrência por curso e por mercado local, seguindo precedentes já observados em operações do ensino superior. O relatório destaca que o Cade já demonstrou em operações anteriores que tende a avaliar segmentos específicos da educação separadamente, o que abre espaço para uma análise individual do mercado de Medicina.
Essa abordagem pode trazer exigências específicas para a aprovação do negócio.
Concentração em Medicina preocupa no Grande Rio
As maiores preocupações identificadas pelo banco aparecem em Teresina (PI), Ji-Paraná (RO), Grande Belém, Grande Salvador e, principalmente, na região metropolitana do Rio de Janeiro. O Grande Rio é o destaque, uma vez que a participação combinada chega a aproximadamente 50% das vagas privadas de Medicina dentro de um raio de 50 quilômetros. Esse nível de concentração pode levar o Cade a impor condições para mitigar efeitos anticompetitivos. A análise sugere que a venda de ativos em áreas específicas pode ser uma solução viável.
Possível venda de escolas médicas como remédio
Para evitar tensões concorrenciais na análise regulatória, o BBA sugere que uma possibilidade seria a venda de escolas de Medicina ou vagas em áreas delimitadas, “ao invés de medidas mais amplas que afetassem a combinação a nível nacional”. Essa alternativa preservaria os ganhos estratégicos da fusão na maior parte do território, ao mesmo tempo em que atenderia às preocupações do órgão antitruste. A decisão final, contudo, caberá ao Cade, que avaliará os remédios propostos pelas empresas. A fonte não detalhou quais ativos específicos poderiam ser alienados.
Sinergias de custos podem elevar múltiplo da Yduqs
Além dos ganhos estratégicos, o estudo avalia o potencial de redução de despesas administrativas da Yduqs. Em um cenário hipotético, uma economia de 20% nas despesas gerais e administrativas poderia gerar aproximadamente R$ 338 milhões em economias após impostos. Esse benefício seria parcialmente compensado por cerca de R$ 80 milhões em custos tributários adicionais relacionados ao Pilar Dois – regras globais da OCDE para garantir uma tributação efetiva mínima de 15% sobre os lucros corporativos de grandes multinacionais.
Isso poderia elevar o múltiplo de preço sobre lucro estimado da Yduqs para 2027 de aproximadamente 5 vezes para 6 vezes.
Relatório projeta P/L ainda mais atrativo
“Mesmo considerando o possível aumento da carga tributária, estimamos que o múltiplo P/L (preço/lucro) da Yduqs em 2027 poderia cair para 3 a 4 vezes em um cenário com captura integral das sinergias, contra 4 a 5 vezes caso a empresa permaneça independente”, afirma o relatório. A análise não considera sinergias de receita, como aumento das vendas, cross-selling ou maior poder de negociação — portanto, esses ganhos seriam um potencial adicional. Essa perspectiva reforça a atratividade financeira da operação para os acionistas da Yduqs, caso as premissas se confirmem.
Concorrentes enfrentariam gigante com 6,5 mil vagas
Para os concorrentes, o surgimento de uma empresa com mais de 6,5 mil vagas de Medicina representaria uma mudança importante no equilíbrio competitivo do ensino superior brasileiro. A consequência é que grupos como Ânima (ANIM3), Cruzeiro do Sul (CSED3), Cogna (COGN3) e Ser Educacional (SEER3) poderiam enfrentar um concorrente ainda mais forte na disputa por alunos, expansão de vagas e futuras aquisições de ativos médicos. Esse cenário pode pressionar margens e acelerar movimentos de consolidação no setor. A reação dessas empresas será crucial para a dinâmica competitiva nos próximos anos.
Exigências do Cade podem gerar oportunidades
Por outro lado, o relatório ressalta que eventuais exigências do Cade podem gerar oportunidades justamente para esses concorrentes. Caso seja necessário vender escolas médicas para viabilizar a fusão, empresas com balanços mais preparados para aquisições poderiam se beneficiar. O banco cita especialmente Cogna e Cruzeiro do Sul como potenciais compradoras naturais desses ativos. Já a Ânima, segundo a análise, continua concentrada na integração da FMU, enquanto a Ser Educacional tem adotado uma estratégia mais voltada ao crescimento orgânico nos últimos anos.
Assim, o desfecho regulatório pode redefinir o mapa de ativos médicos no país.
Fonte
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