Pouco antes do meio-dia de 17 de setembro, os conselheiros da Tata Sons, holding do maior conglomerado da Índia, reuniram-se em uma elegante sala no quarto andar da sede da companhia. O encontro, que se estenderia por quase três horas, marcou o ápice de uma disputa silenciosa pelo controle do império empresarial. Em jogo estavam a possível listagem da holding e a recondução do chairman N. Chandrasekaran por mais cinco anos.
No dia anterior à reunião do conselho, uma das fundações tentou — sem sucesso — impedir que seu conselheiro representante, Venu Srinivasan, participasse do encontro e votasse nas propostas, refletindo divisões internas que logo viriam a público. A tentativa frustrada sinalizava que o embate não se limitava à sala de reuniões, mas envolvia as estruturas de governança da Tata Trusts, acionista majoritária da Tata Sons.
Divisões internas antecedem encontro decisivo
A reunião começou com a discussão sobre a listagem da Tata Sons, uma exigência regulatória que paira sobre a holding. Noel Tata, presidente da Tata Trusts e conselheiro da Tata Sons, argumentou que a listagem não era inevitável e explicou metodicamente por que essa posição poderia ser defendida, sem elevar a voz nem demonstrar qualquer sinal de hostilidade na linguagem corporal, segundo pessoas a par da reunião. Sua postura contrastava com a urgência de outros conselheiros em cumprir as normas do banco central indiano.
Em seguida, a companhia gastou cerca de 200 bilhões de rúpias, ou US$ 2,1 bilhões, para reduzir dívidas e sanear seu balanço, como parte de um esforço para deixar de se enquadrar na categoria regulatória que poderia obrigar a Tata Sons a abrir o capital. A medida, porém, não eliminou a pressão por transparência e prestação de contas.
Listagem divide conselheiros e acionistas
Os defensores da listagem, entre eles o SP Group, argumentam que ela aumentaria a transparência e a prestação de contas, além de criar um mecanismo para que os acionistas destravassem valor. A medida, no entanto, também diluiria a influência da Tata Trusts sobre a companhia e poderia limitar sua capacidade de tomar decisões livremente, protegida do intenso escrutínio de investidores e reguladores. Esse dilema opôs visões sobre o futuro do conglomerado.
Noel afirmou que a recompra poderia ser financiada com recursos próprios, vendas de participações em empresas listadas do grupo Tata, investimentos externos em negócios mais novos e possíveis aberturas de capital de algumas unidades do conglomerado. Sua proposta buscava evitar a listagem da holding sem comprometer a saúde financeira do grupo.
Parecer jurídico alimenta controvérsia
Ao defender sua posição, Noel também apresentou um parecer jurídico escrito por um ex-presidente de tribunal que apoiava a interpretação da Tata Trusts sobre as regras que disciplinam a nomeação e a recondução do presidente da Tata Sons. O documento reforçava a tese de que a Tata Trusts deveria ter poder decisivo sobre o comando da holding. A apresentação do parecer elevou a tensão na sala.
Em seguida, o conselho passou a discutir o futuro de Chandrasekaran. Chandra declarou-se impedido e deixou a sala enquanto os demais conselheiros discutiam seu futuro, segundo pessoas a par da reunião. A saída do chairman abriu espaço para que os conselheiros debatessem abertamente sua recondução.
Voto dividido na Tata Trusts
Noel também citou o Artigo 121 dos documentos que regem a Tata Sons e afirmou que qualquer medida para nomear ou reconduzir o presidente da companhia exigia o apoio da maioria dos conselheiros indicados pela Tata Trusts. Os dois indicados, no entanto, estavam divididos ao meio: enquanto Noel se posicionou contra a prorrogação do mandato de Chandra, Srinivasan a apoiou, deixando os votos da Tata Trusts empatados em 1 a 1. O impasse paralisou momentaneamente a decisão.
Noel tentou novamente invocar seus poderes especiais como presidente da Tata Trusts, mas os demais prosseguiram e apoiaram Chandra por mais cinco anos. O conselho, sem Noel, também aprovou a proposta de avançar com as medidas necessárias para cumprir as exigências do banco central. A votação representou uma derrota dupla para Noel.
Derrota no conselho e saída silenciosa
Quase três horas depois do início da reunião, os conselheiros fizeram uma pausa para o almoço. Noel havia perdido as votações decisivas na sala do conselho, e a disputa já começava a sair do quarto andar. A notícia das deliberações logo se espalharia pelos corredores da Bombay House e além.
Por volta das 15h, Noel deixou a Bombay House em um Range Rover cinza e seguiu para um escritório onde uma equipe de advogados e executivos o aguardava. A reunião com seus assessores indicava que a batalha estava longe de terminar.
Próximos passos permanecem incertos
Com os dois lados entrincheirados, é difícil avaliar o caminho adiante. A recondução de Chandra como conselheiro ainda precisa da aprovação dos acionistas na próxima assembleia anual da Tata Sons, segundo pessoas a par do assunto. A data da reunião ainda não foi anunciada. O desfecho da disputa pode redefinir o equilíbrio de poder no maior império empresarial da Índia.
Fonte
- investnews.com.br
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