Em “A vida invisível da Sra. Orwell”, publicado recentemente no Brasil, a australiana Anna Funder recupera a trajetória de Eileen O’Shaughnessy, primeira mulher de George Orwell, e investiga os mecanismos que apagaram sua participação na vida e na obra do escritor. A obra, com 504 páginas, custa R$ 139,90 e foi lançada pela Companhia das Letras. Funder examina sete biografias de Orwell, todas escritas por homens, e identifica um padrão de omissão em relação às mulheres.
Quem foi Eileen O’Shaughnessy
Formada em literatura e psicologia, poeta e escritora, Eileen foi também leitora, editora e datilógrafa do marido, além de assumir o trabalho doméstico que lhe garantia tempo para escrever. Antes de se casar com Orwell, Eileen já tinha uma trajetória intelectual própria. Nascida em uma família anglo-irlandesa de classe média alta, ganhou uma bolsa para Oxford, onde estudou literatura e teve J. R. R. Tolkien entre seus professores.
Queria seguir carreira acadêmica, mas abandonou o projeto depois de não ficar entre os primeiros colocados do curso — resultado que Funder relaciona também ao preconceito de gênero. Trabalhou como professora, leitora, cronista, palestrante e secretária e, em 1931, abriu o próprio escritório. Sua atuação, porém, foi sendo progressivamente apagada das narrativas sobre a vida de Orwell.
O papel de Eileen na obra de Orwell
É esse trabalho invisível que Funder ilumina por trás da carreira de Orwell, ao enumerar tudo o que Eileen fazia para que o marido tivesse tempo para escrever. Funder mostra ainda sua atuação na Guerra Civil Espanhola e sua influência em A Revolução dos Bichos. Ao cruzar notas de rodapé e documentos, Funder recupera sua presença em Barcelona. Ele trabalhou no Independent Labour Party, onde datilografava as anotações de Orwell e atuava em meio à perseguição stalinista. “Por fim, montei a guerra de Eileen”, escreve. “Ficou claro que salvara vidas.”
O próprio Orwell, segundo Funder, contribuiu para esse desaparecimento. Em Homenagem à Catalunha, Eileen aparece apenas como “minha mulher”, enquanto sua atuação na Guerra Civil Espanhola permanece apagada. Após a morte de Eileen, Orwell passou a procurar outra mulher que pudesse, entre outras tarefas, datilografar seus manuscritos.
As biografias e as “ficções de omissão”
Ao investigar as sete biografias de Orwell — todas escritas por homens —, Funder percebe um padrão. “Cada qual é brilhante, e cada qual conta uma história levemente diferente”, diz. “Mas todos eles minimizam a importância das mulheres na vida de Orwell. No final, as biografias começaram a parecer ficções de omissão.” O apagamento não ocorre apenas quando a mulher é simplesmente excluída da narrativa. Às vezes, ela continua presente, mas deixa de ser sujeito de qualquer ação.
Um dos instrumentos mais eficazes para isso, observa a autora, é a voz passiva.
Para a pesquisadora Maria de Lourdes Eleutério, o caso expõe um mecanismo histórico mais amplo: mulheres que sustentaram carreiras e obras intelectuais permaneceram relegadas à esfera doméstica. Se as mulheres são importantes durante a vida de um escritor, tornam-se ainda mais imprescindíveis depois de sua morte. Eleutério chama atenção para o poder que essas companheiras tiveram na circulação da obra de seus parceiros.
A morte precoce e a busca por substituta
Morta aos 39 anos, em 1945, Eileen só agora começa a recuperar seu lugar na história. Eileen, no entanto, morreu antes de Orwell, em 1945, durante uma histerectomia malsucedida, aos 39 anos. Funder observa que, nos anos seguintes, o escritor passou a procurar alguém capaz de substituí-la. Em especial, em sua função de datilógrafa.
“Ele mesmo fará as emendas em todo o texto, que então precisará ser inteiramente redatilografado, estando ele presente para decifrar seus rabiscos”, escreve Funder. “Tanto o seu agente quanto o editor tentam encontrar uma mulher que vá a [ilha escocesa] Jura para esse serviço.” A busca por uma substituta revela a dependência de Orwell do trabalho de Eileen, mesmo após sua morte.
Um resgate necessário
Anna Funder investiga os mecanismos que apagaram Eileen das biografias do autor de “A revolução dos Bichos” e “1984”. O livro lança luz sobre uma figura fundamental, mas esquecida, da literatura do século XX. Ao recuperar a história de Eileen, Funder não apenas corrige um equívoco histórico, mas também questiona as estruturas que perpetuam o apagamento das mulheres na cultura.
