Diagnóstico de autismo no Brasil pode levar até quatro anos
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O diagnóstico de autismo no Brasil pode levar até quatro anos, conforme aponta uma revisão de estudos científicos sobre o tema. A constatação evidencia entraves na assistência à saúde e lacunas na produção científica nacional. Especialistas ouvidos destacam a necessidade de melhorar a vigilância do desenvolvimento infantil e o fluxo de encaminhamento.

Relato das famílias deve ser ponto de partida

Para os pesquisadores, o relato das famílias deve ser ponto de partida para a investigação diagnóstica. A escuta atenta dos cuidadores é essencial para identificar sinais precoces do Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, muitas vezes essas observações são minimizadas ou não recebem o devido encaminhamento.

“’Cada criança tem seu tempo’ pode ser uma frase válida quando falamos de variações normais do desenvolvimento, mas ela se torna problemática quando encerra a conversa e substitui uma avaliação adequada”, afirma Sallum. A fala reforça a importância de não banalizar as preocupações parentais. A transição para uma avaliação especializada depende de profissionais capacitados e de um sistema que acolha essas demandas.

Falha do sistema, não do profissional

A demora no diagnóstico não é atribuída a falhas individuais dos pediatras ou profissionais da atenção básica. “Eu não vejo isso como uma falha individual do pediatra ou do profissional do posto de saúde, mas como uma falha do sistema. Muitas vezes falta treinamento para reconhecer os sinais precoces, falta uma vigilância mais estruturada e um fluxo claro de encaminhamento”, complementa Cordeiro.

Essa perspectiva desloca o problema para a estrutura da rede de saúde. A ausência de protocolos bem definidos e de capacitação continuada contribui para que os casos sejam identificados tardiamente. Assim, a responsabilidade recai sobre o conjunto do sistema, e não sobre o profissional isolado.

Meninas e populações vulneráveis permanecem invisíveis nos dados

Além dos entraves na assistência, a revisão identificou lacunas importantes na produção científica brasileira. Alguns estudos analisados tinham amostras compostas por até 97% de meninos, o que limita a compreensão sobre possíveis diferenças na trajetória diagnóstica das meninas com TEA. Essa predominância masculina nas pesquisas pode ocultar particularidades do autismo em meninas.

A invisibilidade se estende a grupos sociais específicos. “Com esse nível de ausência de dados, nós simplesmente não conseguimos medir adequadamente se crianças negras, indígenas ou pertencentes a determinados grupos sociais enfrentam trajetórias diagnósticas diferentes”, destaca Sallum. A falta de informações desagregadas impede a formulação de políticas públicas equitativas.

Consequências da demora no diagnóstico

O intervalo de até quatro anos para o diagnóstico tem impactos significativos no desenvolvimento infantil. Atrasos na identificação do TEA podem comprometer o acesso a intervenções precoces, reconhecidamente benéficas para o prognóstico. Crianças que poderiam se beneficiar de terapias específicas ficam sem o suporte adequado durante um período crítico.

Além disso, a demora gera angústia nas famílias, que muitas vezes percorrem diversos serviços sem obter respostas. A peregrinação por consultas e avaliações aumenta a sobrecarga emocional e financeira. A fonte não detalhou dados sobre o impacto econômico dessa demora, mas especialistas concordam que o custo social é elevado.

Caminhos para melhorar o cenário

Diante desse quadro, os pesquisadores defendem a implementação de uma vigilância mais estruturada do desenvolvimento infantil. Isso inclui a adoção de instrumentos de triagem padronizados na atenção primária e a capacitação contínua dos profissionais de saúde. O fortalecimento do fluxo de encaminhamento é apontado como medida essencial para reduzir o tempo de espera.

A produção científica também precisa ser ampliada e diversificada. Estudos com amostras mais representativas, incluindo meninas e diferentes grupos étnico-raciais, são necessários para compreender as múltiplas faces do autismo no Brasil. Somente com dados robustos será possível planejar intervenções eficazes e reduzir as desigualdades no acesso ao diagnóstico.

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