Quando um paciente recebe uma prótese de joelho, poucos imaginam a complexa operação logística e financeira que ocorre nos bastidores. Segundo Ronaldo Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI), a jornada desses dispositivos médicos é invisível para a maioria, mas essencial para o sucesso do procedimento. A reportagem explora cada etapa desse processo, desde o investimento inicial até a espera prolongada pelo pagamento.
Investimento inicial: estrutura de alto custo
Para que uma cirurgia de artroplastia de joelho seja possível, é necessário um conjunto de instrumentais específicos. Um único conjunto pode representar investimento superior a R$ 100 mil. Quando acrescentamos equipamentos motorizados, estoque de implantes e logística, facilmente chegamos a centenas de milhares de reais em ativos necessários para manter uma linha de artroplastia funcionando. Esse capital imobilizado é apenas o começo da jornada.
Além do custo de aquisição, há despesas contínuas com manutenção, esterilização e atualização tecnológica. Os instrumentais precisam estar em perfeito estado para garantir a segurança do paciente. A fonte não detalhou os valores exatos dessas despesas operacionais, mas ressaltou que são significativas. Sem essa infraestrutura, nenhum hospital poderia realizar o procedimento com a precisão exigida.
Dia da cirurgia: mobilização total
No dia da cirurgia, toda essa estrutura é mobilizada. Os materiais são separados, conferidos, transportados e entregues ao hospital. O procedimento acontece. O médico escolhe os componentes adequados ao paciente. Essa escolha depende de fatores como anatomia, idade e nível de atividade do paciente, mas a fonte não detalhou os critérios clínicos específicos.
A logística de entrega é crítica: qualquer atraso pode comprometer a cirurgia. Por isso, os distribuidores mantêm equipes de prontidão e rotas planejadas. Após a entrega, a equipe hospitalar confere novamente os itens antes do início do procedimento. Essa redundância visa minimizar riscos de erro ou falta de material.
Pós-cirurgia: logística reversa e conferência
Os quatro itens são implantados, mas a operação ainda não terminou. Todos os produtos não utilizados precisam ser conferidos, recolhidos, transportados de volta, novamente aferidos e reintegrados ao estoque para a próxima cirurgia. Esse processo de logística reversa exige precisão e rastreabilidade, pois cada componente deve retornar em condições adequadas de esterilização e armazenamento.
A conferência pós-cirúrgica também serve para atualizar o inventário e planejar novas demandas. Qualquer falha nessa etapa pode gerar atrasos em cirurgias futuras. A fonte não detalhou o tempo médio dessa logística reversa, mas indicou que é uma etapa trabalhosa e indispensável.
O peso financeiro: espera de 260 dias
Mas talvez o aspecto mais surpreendente dessa jornada seja financeiro. Em determinadas operações, depois de o cirurgião realizar o procedimento e disponibilizar toda essa estrutura, o distribuidor espera, em média, aproximadamente 170 dias apenas para conseguir faturar os materiais fornecidos. Esse prazo reflete a burocracia e os processos de conferência entre hospital, operadora de saúde e distribuidor.
Depois do faturamento, ainda pode esperar outros 90 dias para receber. São 260 dias, quase uma gestação, entre a cirurgia realizada e a entrada do dinheiro no caixa. Ou seja, durante aproximadamente oito meses e meio, alguém precisa financiar essa cirurgia. Esse financiamento recai sobre o distribuidor, que precisa manter capital de giro para sustentar a operação.
Além do preço dos componentes
É por isso que discutir somente o preço dos quatro componentes implantados é enxergar apenas os últimos metros de uma jornada de quilômetros. O preço de um dispositivo médico não remunera somente aquilo que ficou dentro do paciente. Ele cobre também toda a cadeia de suprimentos, a logística, o estoque e o suporte técnico.
Quando comprimimos excessivamente a remuneração da distribuição, aumentamos prazos de pagamento e transferimos continuamente estoques e custos financeiros para o fornecedor, não estamos retirando apenas a margem de uma empresa. Estamos comprometendo a capacidade de investimento em novas tecnologias e a manutenção da qualidade do serviço.
Impacto na jornada do paciente
São recursos da infraestrutura que garantem disponibilidade, rastreabilidade, segurança e continuidade do atendimento ao paciente que são subtraídos. A jornada da prótese de joelho, e de tantas outras, também faz parte da jornada do paciente. Sem uma distribuição saudável, o acesso a esses dispositivos pode ser prejudicado, especialmente em regiões mais distantes dos grandes centros.
O alerta de Ronaldo Sampaio, presidente da ABRAIDI, evidencia a necessidade de um olhar sistêmico sobre a cadeia de saúde. A sustentabilidade do setor depende do equilíbrio entre custos, prazos e qualidade. A fonte não apresentou propostas específicas, mas reforçou a importância de reconhecer o valor agregado da distribuição.
