Cobras, escorpiões e tendas em Gaza ameaçam deslocados
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Deslocados na Faixa de Gaza relatam a presença recorrente de cobras, escorpiões e insetos dentro das tendas onde vivem, o que transformou o descanso noturno em um momento de vigilância constante. Saber Abu Al-Ajine, deslocado a leste de Deir al-Balah, levanta o cobertor e a esteira todas as noites antes de deixar a família dormir, não para procurar pó, mas sim o que possa estar escondido por baixo.

“O que vemos, matamos; mas o que não vemos, só Deus nos protege”, diz Abu al-Ajin, que passou a ver ratos, insetos, escorpiões e, por vezes, até cobras como parte do seu quotidiano dentro da tenda. “De vez em quando aparece um rato, uma cobra ou um escorpião. Já quase nos habituámos a eles.”

A situação não é isolada. Uma avaliação publicada pela OCHA a 17 de abril revelou a presença recorrente de roedores ou pragas em 1.326 dos 1.644 locais avaliados, ou seja, em 81% deles, locais esses que acolhiam cerca de 1,45 milhões de pessoas. No mesmo período, foram notificados mais de 70 mil casos relacionados com roedores e parasitas externos desde o início de 2026.

Relatos de encontros frequentes com animais peçonhentos

Hassan Al-Samiri, deslocado de Jahr Al-Deek para a zona leste de Deir Al-Balah, afirma que a presença de cobras e escorpiões perto da sua tenda tornou-se frequente. “Quase todas as semanas vejo uma cobra, e há muitos escorpiões e aranhas. Todos os dias mato alguns deles.”

Hassan fala de formas e cores diferentes que vê com os próprios olhos, mas não sabe quais são as espécies com que se depara nem o grau de perigo que representam, o que torna mais difícil para os próprios residentes avaliar a dimensão do problema.

Quanto a Saber, o problema não se limita ao medo das picadas ou mordidas. Ele diz que a sua família tentou usar os pesticidas e sprays disponíveis, mas o efeito foi limitado. “Comprámos medicamentos e sprays e pulverizámos, mas não sentimos que tivesse feito grande diferença. Quando levantamos o colchão, o cobertor ou a esteira, encontramo-los por baixo. Que Deus nos proteja.”

Impacto no cotidiano e na alimentação

Até mesmo deixar a comida à vista por um curto período de tempo tornou-se motivo de preocupação, segundo Saber: “Pensamos logo que um rato, um inseto ou qualquer outra coisa deve ter passado por lá. A nossa vida tornou-se muito difícil.”

A rotina de inspeção antes de dormir e a constante vigilância sobre os alimentos refletem o desgaste psicológico e prático enfrentado pelas famílias. A fonte não detalhou se há iniciativas comunitárias para mitigar o problema além das medidas individuais.

Atendimento médico diante de picadas e mordidas

Numa unidade médica a leste de Deir al-Balah, Maher Abu Amra disse que a sua equipa recebe casos cuja causa não é possível determinar com precisão com os meios disponíveis. Segundo Abu Amra, quando um caso ultrapassa a capacidade da unidade médica, a equipa encaminha-o para instalações do Ministério da Saúde capazes de o assistir.

Noutros casos, os familiares da vítima chegam sabendo já o que causou a lesão. “Já tivemos vários casos em que os pais da criança traziam consigo a cobra ou o escorpião que a tinha picado. Diziam: “Encontrámo-la na tenda e picou-a.”

No entanto, a Organização Mundial da Saúde aconselha que não se tente apanhar a cobra nem se aproxime dela, para evitar lesões adicionais. A Organização recomenda que não se tente apanhar a cobra após a picada, devido ao risco de se ser picado novamente, e salienta a necessidade de procurar cuidados médicos o mais rapidamente possível.

Outros riscos: insetos nos ouvidos

Os casos atendidos pela unidade não se limitam a picadas e mordidas. Abu Amra conta que há crianças que chegam à noite depois de insetos terem entrado nos seus ouvidos enquanto dormiam. “O pai chega à noite e diz: ‘O meu filho sente um movimento no ouvido.’ Quando examinamos, descobrimos que um inseto entrou no ouvido. Já tivemos muitos casos assim.”

Esse tipo de ocorrência adiciona outra camada de apreensão para as famílias, que já lidam com a presença de animais peçonhentos e pragas no ambiente em que vivem.

Resposta humanitária e lacunas na cobertura

Ao longo de 2026, as organizações humanitárias alargaram as operações de controlo de pragas em Gaza, que incluíram pulverizações, controlo de roedores, limpeza de locais e campanhas de sensibilização. No entanto, o relatório referiu ainda que a cobertura dos serviços de gestão dos locais de acolhimento não ultrapassava os 34% do total dos mesmos, o que deixa uma grande percentagem das famílias sem acompanhamento regular a nível local.

Essa lacuna na cobertura pode contribuir para a persistência do problema, apesar dos esforços em curso. A fonte não detalhou se há planos para expandir esses serviços no curto prazo.

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