A curva de juros futuros recuou em todos os vencimentos nesta terça-feira (1º), destoando do movimento observado nos títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, com as eleições de outubro e a atividade mais fraca no radar dos investidores. O movimento reflete um ambiente doméstico marcado por incertezas políticas e sinais de desaceleração econômica, que contrastam com a pressão altista nos rendimentos globais.
No mercado local, as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) caíram de forma consistente, indicando uma leitura mais branda sobre a trajetória da política monetária. Enquanto isso, nos Estados Unidos, os yields avançaram em meio a temores inflacionários e tensões geopolíticas, criando um cenário divergente entre as duas economias.
Taxas recuam em todos os vencimentos
A taxa do contrato de DI para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, encerrou a 13,585%, baixa de 3 pontos-base, ante 13,615% do fechamento anterior. Esse movimento sinaliza uma leve acomodação nas expectativas para a Selic no curto prazo, possivelmente influenciada pela leitura de que o ciclo de aperto monetário pode estar próximo do fim.
Já a taxa de DI para janeiro de 2029, de médio prazo, encerrou as negociações em 14,110%, ante 14,175% do fechamento anterior, recuo de 6,5 pontos-base. A queda mais acentuada nesse vértice sugere que os investidores estão revisando para baixo as projeções de juros para os próximos anos, em meio a expectativas de desaceleração econômica.
A DI para janeiro de 2036, de longo prazo, cedeu 7 pontos-base e terminou o dia a 14,480%, ante 14,550% do fechamento da última quinta-feira (20). O recuo no longo prazo reflete uma menor pressão inflacionária percebida, apesar das incertezas fiscais e políticas que ainda permeiam o cenário doméstico.
Essa trajetória descendente na curva local contrasta com o comportamento dos Treasuries, que operavam em alta no mesmo horário, evidenciando a desconexão entre os fundamentos das duas economias no curto prazo.
Vídeo: YouTube | Fonte: www.moneytimes.com.br
Treasuries sobem com tensões e Fed
Nos EUA, o yield do Treasury de dois anos – mais sensível à política monetária – operava a 4,400%, ante 4,350% do ajuste anterior, por volta de 18h05 (horário de Brasília). A alta reflete a expectativa de que o Federal Reserve possa retomar o ciclo de alta de juros em setembro, diante de pressões inflacionárias renovadas.
Já o retorno do título de 10 anos — referência para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito — subia para 4,796%, de 4,758% da última quinta-feira, no mesmo horário. O avanço nos yields longos indica uma percepção de maior risco inflacionário e prêmio de termo mais elevado.
Os Treasuries avançaram com os temores inflacionários e perspectivas de alta pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) em setembro, diante de novos ataques dos Estados Unidos ao Irã. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira que o mais recente ataque dos EUA ao Irã foi “justificado” e ameaçou com ataques mais intensos caso Teerã retaliasse.
Já Teerã retaliou os ataques dos EUA atingindo com drones alvos de interesse norte-americanos. A escalada das tensões no Oriente Médio adiciona um componente de risco geopolítico que pressiona os preços do petróleo e, consequentemente, as expectativas inflacionárias globais, elevando os rendimentos dos títulos americanos.
Eleições presidenciais no foco
Os investidores seguiram de olho no cenário eleitoral à Presidência acirrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com as últimas pesquisas apontando uma redução na diferença entre os candidatos. A disputa mais apertada aumenta a incerteza sobre a condução da política econômica nos próximos anos, afetando as expectativas para os juros de longo prazo.
Além disso, os desdobramentos do envolvimento do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, contribuíram para a leitura de que a oposição pode melhorar nas próximas pesquisas eleitorais. Esse cenário político volátil tende a reduzir a inclinação da curva de juros, pois os investidores passam a precificar uma possível mudança de orientação econômica.
No entanto, a fonte não detalhou como exatamente esses eventos podem influenciar as projeções de política monetária, mas o movimento das taxas sugere uma postura mais cautelosa por parte dos agentes financeiros.
PIB desacelera e setores cíclicos perdem força
O mercado ainda acompanhou a desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre de 2026, que cresceu 0,5%, com os setores mais cíclicos perdendo força, enquanto o agro e a indústria extrativa seguiram com desempenho positivo. O resultado veio em linha com as expectativas de um arrefecimento da atividade, após um primeiro trimestre mais robusto.
Para o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, a alta do PIB veio ligeiramente acima do esperado, mas puxado por segmentos que não são afetados pelos ciclo econômico, como agro e indústria extrativa. “A indústria de transformação sentiu o peso da taxa de juros, e essa combinação de estímulos do governo com desemprego mais baixo ainda favorece a área de serviços. Portanto, é uma economia que ainda segue por conta de renda, agropecuária e indústria extrativa”, diz.
A expectativa do BV é de que esses efeitos da agropecuária diminuam no terceiro trimestre, e o impacto do aperto monetário continue se espalhando pela economia. O banco projeta expansão de 0,2% para o PIB do terceiro trimestre na margem. Essa desaceleração adicional reforça a visão de que o Banco Central pode ter espaço para interromper o ciclo de alta de juros, contribuindo para a queda das taxas futuras.
Em resumo, o movimento dos juros futuros no Brasil reflete uma combinação de fatores domésticos – eleições incertas e atividade em desaceleração – que se sobrepõem à pressão altista vinda dos Treasuries, resultando em uma curva local mais inclinada para baixo.
Fonte
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