Acordo de Meca: expansão e cálculos regionais em foco
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Menos de três semanas depois da assinatura do Acordo de Meca, o foco começou a deslocar-se da promessa de defesa colectiva para os outros países que poderiam aderir. O Bangladesh manifestou publicamente interesse em participar, e o Egito confirmou que está a estudar a questão, enquanto o Irão, potencial novo membro de maior impacto, viu-se no centro de relatos contraditórios sobre se recebeu ou não um convite para aderir.

Os três governos insistem em que o acordo é defensivo e não visa a nenhum Estado específico, enquanto responsáveis turcos e paquistaneses esclareceram que permanece aberto a outros países. Ao assinar o texto, Erdogan afirmou que os países que procuram promover a paz e a estabilidade regionais podem participar, enquanto o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Hakan Fidan, descreveu os actuais membros como o núcleo de uma estrutura passível de ser ampliada.

Já o Acordo de Meca é recente, apresenta menor grau de institucionalização e ainda não foi posto à prova numa crise real. Para Muhammad Ali Zafar, investigador na Universidade de Oxford, a importância do acordo não depende apenas da eventual capacidade futura de replicar a arquitectura militar da OTAN.

Expansão pode começar pelo sul da Ásia

O relatório de Valenti indica que a primeira expansão possível do acordo poderá vir do sul da Ásia, e não de outra potência no Médio Oriente. O ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh, Humayun Kabir, afirmou que Daca manifestou interesse no acordo e vê com bons olhos a possibilidade de participação.

A adesão de Bangladesh introduziria mais um grande país de maioria muçulmana no grupo e alargaria o seu alcance até ao oceano Índico, mas acrescentaria também uma nova dimensão à rivalidade no sul da Ásia, tendo em conta a presença do Paquistão. Zafar considerou: “Bangladesh é um potencial parceiro importante para os actuais membros, mas, tendo em conta as recentes convulsões internas no país, parece pouco provável que adopte de imediato uma decisão deste tipo.”

Na opinião do investigador, a adesão de Bangladesh poderá inquietar a Índia perante a possibilidade de Daca se alinhar com o Paquistão num eventual conflito futuro, sobretudo porque a cláusula de defesa colectiva prevê que um ataque contra um membro seja considerado um ataque contra todos.

Dúvidas sobre o valor estratégico para Daca

Zafar questionou ainda se Daca dispõe de motivos estratégicos suficientes para assumir compromissos ligados a conflitos distantes do sul da Ásia. “Não faz muito sentido Daca envolver-se directamente nesses conflitos nesta fase”, afirmou. “Mas, se surgir a possibilidade de adesão do Irão e de outros países, Bangladesh poderá reavaliar o valor estratégico da sua participação.”

Na análise de Valenti, a questão da expansão torna-se mais complexa quando se fala do Irão, cuja eventual adesão seria qualitativamente diferente da de Bangladesh ou do Egito. O relatório recorda que os governos fundadores insistem em que o acordo não visa Teerão, embora tenha surgido num contexto de segurança alterado pelos ataques directos iranianos a países do Golfo e pela confrontação mais ampla entre os Estados Unidos e Israel, por um lado, e o Irão, por outro.

Irão no centro de relatos contraditórios

Os Estados fundadores partilham preocupações quanto a uma postura militar iraniana cada vez mais assertiva e em relação às movimentações de Israel na região, mas recusam apresentar o acordo como um eixo anti-Irão ou, por si só, como uma aliança hostil a Israel. Ali Hosseini, investigador no Instituto Iraniano de Estudos sobre a Iniciativa Cinturão e Rota, pseudónimo utilizado para proteger a sua identidade, considera que a participação do Irão colidiria com os seus interesses estratégicos.

Disse ao “The Media Line”: “A adesão ao Acordo de Meca para a defesa é não só ilógica, como constitui um profundo erro de cálculo estratégico. Em vez de produzir uma dissuasão credível contra Israel, tornaria o Irão um alvo mais visível e vulnerável.”

A sua leitura diverge da posição oficial dos países signatários, ao defender que a lógica de segurança do acordo foi moldada, em grande medida, por preocupações relacionadas com o Irão. “A arquitetura estratégica do Acordo de Meca foi concebida explicitamente como um mecanismo para conter o poder militar iraniano”, afirmou. “O esforço do Irão para aderir equivale a alinhar-se com uma aliança estruturada para limitar os seus interesses estratégicos.”

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