O Super El Niño previsto para 2026 pode expor uma fragilidade silenciosa do sistema de saúde brasileiro: a dificuldade de fazer a informação clínica circular entre diferentes serviços, municípios e níveis de atenção. Em um cenário de enchentes, ondas de calor e queimadas, a capacidade de resposta depende não apenas de leitos e equipes, mas também da integração de dados. O paradoxo é evidente.
Todos discutem aumento de custos, sobrecarga assistencial e necessidade de eficiência, mas ainda há pouca disposição para enfrentar uma das fontes mais concretas de desperdício, a informação parada em sistemas que não conversam entre si.
O paradoxo da informação parada
O debate sobre sustentabilidade do sistema de saúde frequentemente ignora um fator crítico: a fragmentação dos registros eletrônicos. Enquanto gestores buscam reduzir despesas e otimizar recursos, dados clínicos essenciais permanecem isolados em plataformas incompatíveis. Isso gera retrabalho, exames duplicados e atrasos no atendimento. A fonte não detalhou valores específicos de desperdício, mas apontou que a falta de interoperabilidade é uma fonte concreta de ineficiência. A transição para um modelo verdadeiramente conectado exigiria investimento em padronização e governança de dados.
Em emergências climáticas, essa desconexão se torna ainda mais perigosa. Um paciente deslocado por uma enchente pode chegar a um hospital sem que a equipe local tenha acesso ao seu histórico. Medicamentos de uso contínuo, alergias e condições pré-existentes ficam invisíveis. A continuidade do cuidado é rompida justamente quando a demanda aumenta. O paradoxo se aprofunda: discute-se eficiência, mas não se ataca a raiz do problema.
Clima extremo testa a integração
O Brasil avançou com o SUS Digital, mas ainda convivemos com uma integração insuficiente entre sistemas, instituições e níveis de atenção. Em uma enchente, um paciente pode ser atendido em outro município. Em uma onda de calor, diferentes unidades podem receber simultaneamente pessoas com o mesmo perfil de agravamento clínico. A capacidade de responder depende também da circulação da informação. Sem interoperabilidade, cada serviço atua às cegas, repetindo anamneses e solicitando exames que já foram feitos em outro local.
Durante uma onda de calor, por exemplo, idosos e pessoas com doenças cardiovasculares procuram diferentes unidades com sintomas semelhantes: desidratação, confusão mental, queda de pressão. Se os sistemas não compartilham dados, cada pronto-socorro precisa reconstruir o quadro do zero. O tempo perdido pode ser decisivo. Em enchentes, o cenário é ainda mais complexo: prontuários em papel são destruídos, e a única memória clínica do paciente pode estar em um servidor distante. A fonte não detalhou casos específicos, mas o risco é evidente.
O SUS Digital e seus limites
A criação do SUS Digital representou um passo importante na modernização da saúde pública. A plataforma busca unificar informações de atendimento, vacinação e medicamentos. No entanto, a integração entre estados, municípios e a rede privada ainda é desigual. Muitos estabelecimentos utilizam sistemas próprios, que não se comunicam com a rede nacional. A fonte não detalhou o percentual de adesão, mas ressaltou que a integração permanece insuficiente. Em situações de calamidade, essa lacuna fica exposta.
A interoperabilidade não é apenas uma questão técnica. Envolve acordos institucionais, padronização de vocabulários clínicos e políticas de segurança da informação. Sem esses pilares, o SUS Digital funciona como um repositório parcial, não como uma rede viva de dados. O Super El Niño pode funcionar como um teste de estresse para essa infraestrutura. A resposta do sistema dependerá de sua capacidade de compartilhar informações em tempo real.
O papel da saúde privada
A fragmentação não é exclusiva do setor público. Hospitais privados, laboratórios e clínicas também operam com sistemas heterogêneos. Um paciente que realiza exames em um laboratório pode não ter os resultados automaticamente disponíveis no consultório médico. Em emergências, essa falha obriga o profissional a decidir com base em informações incompletas. A fonte não detalhou o impacto financeiro, mas indicou que a informação parada é uma fonte concreta de desperdício. A integração entre os setores público e privado é ainda mais rara, criando um vácuo perigoso em desastres.
Durante uma enchente, um hospital privado pode receber pacientes do SUS por falta de vagas na rede pública. Se os sistemas não conversam, o histórico do paciente não o acompanha. A equipe precisa recomeçar do zero, aumentando o risco de erros. A interoperabilidade plena exigiria acordos de compartilhamento que respeitem a privacidade, mas garantam a continuidade do cuidado. A fonte não detalhou iniciativas em andamento.
O teste de maturidade digital
O clima extremo de 2026 provavelmente será temporário. A necessidade de uma saúde conectada, interoperável e coordenada continuará depois que as águas baixarem, a fumaça se dissipar e as temperaturas voltarem ao normal. O Super El Niño pode acabar se tornando mais um teste de maturidade digital do sistema de saúde brasileiro. A pergunta central é se o país aproveitará a crise para acelerar a integração ou se repetirá o padrão de reagir apenas quando o desastre já ocorreu.
A maturidade digital não se mede apenas pela adoção de tecnologia, mas pela capacidade de fazer a informação fluir entre todos os pontos de atenção. Isso exige liderança, investimento contínuo e uma visão de longo prazo. A fonte não detalhou planos específicos do governo ou do setor privado. No entanto, o alerta está dado: sem interoperabilidade, o sistema de saúde continuará vulnerável a choques climáticos e a desperdícios cotidianos.
Iomani Engelmann é cofundador e Co-CEO da Pixeon.
