Sem dragagem, Rio Tapajós pode travar Arco Norte
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A iminência de uma seca severa no verão amazônico, agravada pela chegada do El Niño em setembro, coloca em risco a navegabilidade do Rio Tapajós, principal rota de escoamento de grãos do Arco Norte. Um grupo com mais de 30 entidades do setor produtivo, liderado pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), enviou na sexta-feira, 28 de agosto, um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), reforçando o pedido de dragagem em trechos críticos.

Sem intervenção, o corredor logístico pode repetir o colapso vivido no último El Niño, gerando prejuízos estimados em até R$ 850 milhões.

O temor é atribuído à vigência do período de seca mais prolongada do verão amazônico, entre agosto e outubro, que deve ser agravado com a chegada do El Niño, em setembro. Com previsão de seca severa e assoreamento crescente, o Tapajós, responsável por 88% do fluxo de soja e milho rumo aos portos do Arco Norte, corre o risco de repetir o colapso vivido no último El Niño, sem plano B definido pelo governo.

Importância estratégica da hidrovia

Hoje, quase 90% da movimentação do Rio Tapajós está ligada ao agronegócio. Em 2025, a hidrovia movimentou 16,8 milhões de toneladas, alta de 14,3% em relação ao ano anterior. Soja e milho responderam por 88,4% desse volume. A rota começa em Mato Grosso: a produção chega de caminhão pela BR-163 aos terminais de transbordo de Miritituba, em Itaituba, onde é transferida para comboios de barcaças.

Um comboio médio é feito por 35 barcaças — cada uma carrega 1.500 toneladas de carga, o equivalente a 58 carretas de caminhão. De lá, segue pelo Tapajós até instalações portuárias em Santarém e Barcarena, de onde os produtos são destinados ao mercado externo. A eficiência desse modal é crucial para a competitividade do agronegócio brasileiro.

Pedido de dragagem em trechos críticos

O trecho em que o documento da FPA pede dragagem de manutenção se estende por cerca de 280 quilômetros do Tapajós em território paraense, entre Itaituba e Santarém, um terço dos 840 km de extensão do rio. Inicialmente, as entidades do setor produtivo pleiteavam a retirada de 1 milhão de metros cúbicos de sedimentos em sete trechos entre Miritituba e Santarém, abrangendo menos de 2% da extensão navegável, com execução prevista em 90 a 100 dias.

Após o impasse de julho, o setor produtivo sugere agora uma solução emergencial, para reduzir impactos e enfrentar apenas os três pontos críticos onde o calado do rio está mais baixo. Segundo ele, a essa altura, o setor produtivo tem apenas um mês para tentar minimizar o problema nos três trechos mais críticos.

Impactos econômicos e sociais

Segundo a FPA, uma interrupção ou redução da capacidade de transporte pelo Tapajós poderia gerar custos adicionais de R$ 150 a R$ 250 por tonelada. O impacto não ficaria restrito às exportações: o Tapajós também transporta fertilizantes, combustíveis e outros produtos que abastecem cidades da região. A paralisação afetaria diretamente a economia local e a logística de insumos essenciais.

Um estudo sobre a infraestrutura de grãos do País divulgado em junho pelo Banco Santander indica que, durante o El Niño, o nível do Rio Tapajós fica, em média, cerca de 0,9 m abaixo do normal. Essa redução de calado pode inviabilizar a passagem de comboios carregados, forçando o desvio de cargas para rotas mais caras ou a paralisação temporária.

Impasse ambiental e recuos do governo

De janeiro para cá, o governo federal recuou duas vezes após autorizar a dragagem de manutenção do Tapajós em sete trechos críticos – ambas depois de protestos de ONGs e comunidades indígenas. Uma nota técnica do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental — rede de organizações da sociedade civil dedicada a influenciar políticas públicas de infraestrutura, em especial na Amazônia — também questiona a classificação das obras como simples dragagem de manutenção.

De acordo com a entidade, quatro dos sete trechos nunca receberam esse tipo de intervenção e, em outros, os volumes previstos excederiam o padrão de manutenção. O grupo defende licenciamento, estudos de impacto e consulta às comunidades antes de qualquer obra. “O rio já sofre pressão de atividades como o garimpo, e intervenções podem afetar biodiversidade, modos de vida e a dinâmica dos ambientes”, afirma Renata Utsunomiya, analista do GT Infra.

Visão do setor produtivo

Vaz observa que o temor de que a dragagem prejudique o Rio Tapajós é exagerada. No trecho mais curto para obras de dragagem, em Barreiras, por exemplo, a distância entre as margens é de 4 km. À medida que o corredor do Tapajós ganhou relevância, o velho embate entre o incentivo à produção econômica da Amazônia e a resistência de grupos ambientais e de comunidades indígenas a esse desenvolvimento se acirrou.

O diretor-executivo da Adecon afirma que por trás dessa polêmica sobre a dragagem emergencial no Tapajós – um problema localizado – há uma disputa mais ampla, em torno da viabilização do programa de concessões de hidrovias do governo federal. A indefinição sobre a dragagem pode comprometer não apenas a safra atual, mas também os planos de longo prazo para a infraestrutura logística da região.

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