Pela primeira vez em mais de uma década, a empresa típica de software opera no azul. Segundo a SaaS Capital, a margem operacional mediana das empresas públicas de software nos Estados Unidos saiu de 21% negativos em 2022 para 5% positivos em 2026. O movimento aparece também no operacional do setor, indicando uma mudança estrutural na forma como essas companhias são geridas.
Essa virada de sinal reflete um amadurecimento do mercado, que antes priorizava o crescimento a qualquer custo. Agora, a eficiência operacional se tornou um diferencial competitivo, e os números mostram que as empresas estão conseguindo conciliar expansão com rentabilidade.
Crescimento perde peso relativo na precificação
Na mesma amostra, o peso relativo entre os dois fatores, isto é, crescimento e margem, virou de forma expressiva. No auge do ciclo passado, o crescimento pesava 9,4 vezes mais que a margem na formação do múltiplo, proporção que hoje caiu para 3 vezes. Na prática, a margem triplicou de peso na precificação em quatro anos.
Isso significa que o mercado deixou de valorizar apenas o crescimento acelerado. Como destaca a análise, o prêmio de valuation hoje não está no crescimento sozinho, e sim na qualidade desse crescimento. Empresas que combinam expansão com margens saudáveis são as mais bem avaliadas.
M&A incorpora métricas de eficiência nos contratos
A mudança de mentalidade também alterou a arquitetura dos deals. Indicadores como churn, retenção líquida de receita e margem EBITDA passaram a ocupar lugar de destaque nas negociações e, em muitos casos, viraram cláusula de contrato. Na prática, isso não mexe apenas no múltiplo, mexe na forma como o preço é pago.
Compradores estão mais cautelosos e exigentes. Eles querem garantias de que a empresa-alvo não apenas cresce, mas cresce de forma sustentável e previsível. Por isso, métricas operacionais agora são monitoradas de perto e podem influenciar o valor final da transação.
Cenário macroeconômico reforça cautela nos deals
O cenário macroeconômico local reforça esse contexto. Com a Selic em 15% ao ano em 2025, o maior patamar desde 2006, dificilmente um comitê de investimento aprova aquisição por fé. A pergunta deixou de ser apenas quanto a empresa cresce para se tornar qual retorno aquela aquisição gera, em quanto tempo e com qual nível de risco.
Juros altos encarecem o custo de capital e exigem retornos mais rápidos e seguros. Isso força compradores a serem mais criteriosos na avaliação de alvos, priorizando empresas com margens sólidas e geração de caixa consistente.
No fim, o mercado de M&A em software continua premiando o crescimento, mas passou a exigir eficiência, previsibilidade e capacidade de gerar caixa junto com ele. A margem, antes coadjuvante, tornou-se protagonista nas negociações.