O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, afirmou nesta quinta-feira (2) que o governo do presidente Rodrigo Paz – de quem se afastou politicamente no início do mandato – deve forjar um processo falso para justificar sua prisão, acrescentando que teme pela própria vida. A declaração foi feita em carta aberta publicada em redes sociais, na qual Lara relatou ter recebido alertas de integrantes da Polícia Boliviana. O episódio intensifica a crise política no país, marcada por disputas entre o Executivo e setores da oposição.
“Denuncio ao país que fui informado, por diversos camaradas da Polícia Boliviana que decidiram me alertar, que o Coronel Marcelo Ferrufino está fabricando um processo falso contra mim para prosseguir com minha prisão ilegal”, afirmou Lara. A acusação direciona o foco para um oficial da corporação, sem que haja, até o momento, manifestação oficial do governo sobre o caso. A fonte não detalhou o teor do suposto processo nem as acusações que estariam sendo preparadas.
A denúncia de Edmand Lara ocorre dois dias após a prisão do procurador-geral da República da Bolívia, Roger Mariaca, acusado pelo governo Paz de ligações com o narcotráfico. O vice-presidente vem pedindo explicações sobre a prisão de Mariaca. “Existem denúncias e questionamentos sobre a legalidade e os procedimentos adotados. Cabe, então, às autoridades competentes explicar essa situação”, declarou Lara, em tom de cobrança institucional.
Vice-presidente teme por sua segurança
O vice-presidente Edman Lara, que se encontra em viagem à Espanha, afirmou na carta publicada hoje que teme por sua segurança física e por sua vida. A distância geográfica não reduziu o tom de alerta: Lara relatou ter recebido avisos de dentro do próprio Poder Executivo. “Nesta situação de incerteza, recebi avisos de dentro do Poder Executivo que buscam me intimidar por minha posição em defesa da Constituição e da democracia. Trata-se de uma armação com motivação política para me silenciar”, denunciou.
A declaração sugere que o vice-presidente se vê como alvo de retaliação por sua postura crítica ao governo.
Até o fechamento desta reportagem, o governo de Rodrigo Paz não havia se manifestado sobre as denúncias do vice-presidente. A ausência de resposta oficial deixa espaço para especulações sobre os próximos passos do Executivo. Analistas ouvidos pela reportagem indicam que o silêncio pode ser interpretado como estratégia de contenção de danos ou como indício de que o governo prepara uma reação formal.
Crise institucional se aprofunda
A doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP) Alina Ribeiro, especialista na política boliviana, lembrou à Agência Brasil que Edmand Lara foi para a oposição ao governo Paz e que o vice-presidente vinha questionando o papel de Cerimedo no governo. A menção a Cerimedo remete a um personagem central nas tensões atuais, embora a fonte não tenha detalhado sua função exata. A defesa de Cerimedo nega as acusações alegando que o cliente é vítima de uma armação política. A divergência de versões reforça o clima de instabilidade.
A prisão do procurador-geral da Bolívia Roger Mariaca, dois dias depois de ter sido acusado pelo governo Donald Trump de relação com o narcotráfico, levou servidores ligados ao procurador a denunciarem que ele foi “sequestrado” sem mandado judicial. A acusação de irregularidade processual ecoa as críticas de Lara sobre a legalidade dos procedimentos. O vice-presidente ainda entrou em conflito com o governo ao discordar do procedimento para substituir o procurador-geral preso.
Disputa no Legislativo amplia tensão
Na Bolívia, a vice-presidência tem funções parlamentares e Lara havia convocado uma sessão legislativa, para próxima terça-feira (5), para discutir as acusações do governo Trump contra diversas autoridades bolivianas. Porém, o presidente do Senado, Diego Ávila, antecipou a sessão para a tarde desta sexta-feira (2), mudando o objeto da sessão para discutir exclusivamente a prisão de Mariaca. A mudança gerou críticas de Lara, que viu na manobra uma tentativa de esvaziar o debate mais amplo sobre as acusações internacionais.
A antecipação da sessão e a restrição da pauta indicam um racha entre os poderes. Enquanto Lara buscava discutir as acusações de Washington contra autoridades bolivianas, Ávila focou no caso Mariaca. A divergência de prioridades reflete a disputa pelo controle da agenda política em um momento de forte pressão externa. A fonte não detalhou se a sessão desta sexta-feira ocorreu conforme o previsto ou se houve novos desdobramentos.
Contexto internacional e Escudo das Américas
O governo dos Estados Unidos (EUA) defendeu a prisão do procurador-geral Roger Mariaca, alegando que a medida representou uma ação do Escudo das Américas, iniciativa liderada por Trump com outros 14 países latino-americanos para, supostamente, combater os cartéis de drogas. Porém, analistas apontam que a coalizão tem interesses econômicos de subordinar a América Latina à influência da Casa Branca e barrar parcerias com a China, em meio à guerra comercial entre as duas potências. A leitura crítica sugere que a ofensiva contra Mariaca pode ter motivações geopolíticas mais amplas.
Nas redes sociais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o governo Trump apoia “firmemente” a operação do governo de Rodrigo Paz contra o procurador-geral da Bolívia. “Os EUA reafirmaram explicitamente seu compromisso inabalável de proteger a governança democrática e a segurança em nossa região contra a influência desestabilizadora de redes armadas de narcoterroristas”, disse Rubio. Em nota conjunta, os países do Escudo das Américas também saíram em defesa de Paz.
“Os 15 países permaneceram unidos em seu firme compromisso de defender governos democraticamente eleitos e proteger a segurança regional contra a influência corrosiva de redes narcoterroristas”, diz o comunicado.
O alinhamento internacional em torno do governo Paz contrasta com as denúncias de Lara sobre perseguição política. Enquanto o Executivo boliviano recebe apoio externo para a prisão de Mariaca, o vice-presidente denuncia uma trama para silenciá-lo. O cenário expõe a complexidade da crise boliviana, na qual interesses domésticos e geopolíticos se entrelaçam. A fonte não detalhou se o governo Paz pretende se pronunciar sobre as acusações de Lara nos próximos dias.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- nota conjunta (www.state.gov)
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Repórter Brasil Tarde de 2 de outubro de 2026; assista na íntegra (tvbrasil.ebc.com.br)
