O venture capital brasileiro enfrenta um inverno prolongado desde 2022, e a saída, segundo especialistas, exige abandonar o roteiro consagrado pelo mercado americano. Em painel no Web Summit Rio, investidores defenderam que insistir na escadinha de Série A, B, C, D e IPO bilionário na Nasdaq mantém o ecossistema preso no frio. Para Marcello Gonçalves, sócio da DOMO.VC, a primavera segue sem data para chegar.

Inverno sem previsão de fim

Marcello Gonçalves comparou o momento a uma série de fantasia. “Estou me sentindo meio no Game of Thrones. Não estou vendo nenhum raio de sol aparecer, pelo menos até as eleições. Juro a 15%, mentalidade curto-prazista do investidor. O Brasil hoje não está fácil para pensar em negócio de longo prazo, como é o venture capital”, afirmou. A cautela é a tônica do discurso do investidor, que prega prudência na corrida por startups.

O cenário é agravado pela concorrência global. O venture capital global bateu recorde histórico no primeiro trimestre de 2026, com cerca de US$ 300 bilhões investidos, segundo dados do Crunchbase. Enquanto isso, o Brasil fechou 2025 com US$ 4,5 bilhões captados, uma queda de 13% em volume e de 22% no número de rodadas. Menos da metade do montante veio de rodadas de equity, o que acende alertas sobre a qualidade dos investimentos.

IA e a régua dupla dos valuations

A febre de inteligência artificial nos Estados Unidos desviou a atenção de fundos que antes olhavam para o Brasil. Fred, outro participante do painel, relatou que conversaram com alguns fundos globais e eles disseram: “por que eu deveria me importar (com o Brasil)? Por que se preocupar com a América Latina se tem tanta coisa acontecendo nos Estados Unidos?”. Esses mesmos fundos, lembrou Fred, bancavam as rodadas de growth por aqui.

A régua dupla já chegou aos valuations locais. Marcello explicou que, se a startup tem IA, vale 10 vezes o faturamento; se não tem, é 4. A disparidade reflete a dificuldade de precificar empresas em um mercado volátil. “É muito difícil saber o que o Claude ou o ChatGPT vai matar daqui a um mês”, ponderou Marcello, destacando a incerteza tecnológica.

Rasgar o playbook americano

Para os investidores do painel, a saída do inverno exige que o VC brasileiro “rasgue” o playbook americano. O modelo tradicional de Série A, B, C, D e IPO bilionário na Nasdaq não se adequa à realidade local. Em vez disso, propõem buscar alternativas como fusões, aquisições e saídas estratégicas que não dependam do mercado de capitais dos EUA.

A mensagem é clara: insistir no roteiro americano mantém o ecossistema brasileiro no inverno. Com juros altos e investidores de curto prazo, o venture capital local precisa se reinventar. A primavera, como disse Marcello, ainda não tem data para chegar, mas o caminho pode começar com a coragem de abandonar velhos paradigmas.

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