Uvas inconvenientes viram ativo estratégico da indústria do vinho
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O que são uvas ‘inconvenientes’?

Vinicultores por décadas eliminaram variedades de uvas consideradas ‘inconvenientes’ — por características como amadurecimento tardio, baixos rendimentos ou alta acidez. Agora, essas mesmas castas são redescobertas como ativos estratégicos.

Mudanças climáticas e a demanda do mercado de alto padrão por autenticidade e equilíbrio impulsionam o resgate dessas castas esquecidas. Na França, Espanha e Itália, projetos de replantio e experimentação ganham força, transformando o que era descartado em diferencial competitivo.

Clima ameaça regiões tradicionais

Uma revisão de 2024 indicou que 90% das regiões vinícolas tradicionais podem se tornar inviáveis até o final do século. Zonas como Bordeaux, Champagne e Borgonha já convivem com impactos semelhantes.

O calor excessivo eleva os níveis de açúcar nos frutos, resultando em vinhos com teor alcoólico alto e pouca acidez — perfil oposto ao que consagrou essas denominações. Em Champagne, as castas dominantes Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier dependem do clima úmido e frio para maturação lenta e preservação da acidez. Diante do aquecimento global, produtores buscam alternativas que mantenham a identidade dos vinhos.

Castas quase extintas ganham nova vida

Vinícolas como a Maison Drappier estão replantando variedades quase extintas, como Arbane e Petit Meslier. Essas uvas são permitidas pela legislação de Champagne, mas estavam praticamente abandonadas, consideradas de baixa qualidade e manejo difícil.

Arbane e Petit Meslier amadurecem lentamente e retêm alto teor ácido — justamente as qualidades que hoje se mostram valiosas. Há cerca de 20 anos, a Maison Drappier iniciou replantio experimental dessas castas para preservar a diversidade genética regional.

O resultado é o Champagne Drappier Quattuor, que reúne Chardonnay, Blanc Vrai, Arbane e Petit Meslier em partes iguais. Considerado o primeiro e único Champagne branco feito com quatro castas brancas diferentes, o Quattuor representa, nas palavras de Michel Drappier, ‘uma forma de construção nova a partir de elementos antigos’.

Outros produtores seguem caminho semelhante:

  • A Maison Moutard produz a Cuvée Cépage Arbane Vieilles Vignes.
  • Olivier Horiot lança tiragens limitadas de Champagne 100% Arbane.

A Master of Wine Essi Avellan destacou a alta acidez e a finesse da Arbane como qualidades de potencial interesse para produtores que buscam adaptação climática.

Movimento se espalha pela Europa

Projetos semelhantes ocorrem na Espanha e Itália, com uvas como Forcada e Schioppettino. No Piemonte, Walter Massa liderou movimento pela recuperação da uva Timorasso, que estava à beira da extinção. Na Catalunha, a família Torres lidera projeto focado em localizar cepas sobreviventes de uma praga do século XIX, buscando variedades resilientes.

O mercado de alto padrão, que busca autenticidade e equilíbrio nos vinhos, tem acolhido essas novidades. A combinação de exclusividade, história e adaptação climática torna essas uvas ‘inconvenientes’ um ativo estratégico para a indústria. A fonte não detalhou projeções de crescimento, mas o movimento já é visto como tendência consolidada.

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