Uma empresa israelense está no centro de suspeitas de rastrear usuários da Starlink por meio de anúncios direcionados, conforme relatório público da TrendAI divulgado em 15 de outubro. O documento identifica o operador pelo codinome Shadow-Earth-79, que liderava os lances vencedores para anúncios destinados a conexões do serviço de internet via satélite em 105 países, incluindo o Brasil. A prática, se confirmada, pode expor dados de localização de milhões de pessoas em áreas remotas ou de conflito.
O relatório analisou uma amostra de leilões de anúncios online e constatou que a Shadow-Earth-79 concentrava seus esforços em endereços IP vinculados à Starlink. A TrendAI ressalva que a localização inferida por esses endereços tem margem de erro, o que não elimina o risco de identificação aproximada dos usuários. A suspeita é de que a empresa utilize a infraestrutura de publicidade digital para mapear dispositivos conectados à rede de satélites.
Como funciona o rastreamento por anúncios
O mecanismo de rastreamento por anúncios explora o sistema de leilões em tempo real, no qual anunciantes competem para exibir publicidade a usuários específicos. Ao vencer lances para IPs da Starlink, a Shadow-Earth-79 poderia receber dados como localização aproximada, horário de acesso e identificadores do dispositivo. Essas informações, isoladas, têm precisão limitada, mas podem ser cruzadas com outras bases para refinar o perfil do usuário.
A TrendAI observou que a empresa israelense mantinha uma presença consistente nos leilões de anúncios voltados à Starlink, sugerindo um interesse deliberado e não aleatório. A amostra analisada cobriu 105 países, o que indica uma operação em escala global. A fonte não detalhou o volume total de lances ou o período exato da coleta, mas o padrão identificado aponta para uma estratégia de monitoramento contínuo.
Especialistas em segurança digital alertam que o rastreamento por anúncios pode ser usado para identificar alvos em regiões sensíveis. A internet por satélite é utilizada em zonas de conflito onde as redes terrestres estão comprometidas, e identificar seus usuários pode, portanto, ter valor para operações de inteligência. A Starlink, operada pela SpaceX, tem sido adotada em áreas de guerra e desastres, o que amplia a relevância dessa suspeita.
Histórico ligado a spyware preocupa
A suspeita ganha contornos mais graves diante de investigações anteriores. Uma investigação do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, associou anúncios comprados pela Discover-Tech à distribuição de um programa espião da Candiru em ataques contra a Al Jazeera, em 2024 e 2025. Ao menos 45 dispositivos da emissora foram alvo dessas ações, segundo o laboratório. A Discover-Tech, que não é citada diretamente no relatório da TrendAI, aparece como peça-chave em um ecossistema de vigilância comercial.
O Citizen Lab apontou que a Discover-Tech utilizava a mesma tática de leilões de anúncios para entregar malware a jornalistas e ativistas. A empresa israelense Candiru, conhecida por desenvolver spyware de alta sofisticação, teria se beneficiado dessa infraestrutura para infectar dispositivos sem interação do usuário. O caso da Al Jazeera expôs como a publicidade programática pode ser desviada para fins maliciosos.
Segundo o Citizen Lab, o Google retirou a Discover-Tech de seus cadastros de fornecedores e encerrou seu acesso às plataformas de leilão de anúncios no início de outubro. A medida, tomada após a divulgação das evidências, mostra que as grandes plataformas estão sob pressão para coibir abusos. No entanto, a Shadow-Earth-79 permanece ativa, o que sugere que outras empresas podem estar operando com métodos semelhantes.
Resposta das empresas e implicações
A Discover-Tech, seu presidente-executivo e a SpaceX não responderam aos pedidos de comentário da Reuters. O silêncio das companhias envolvidas dificulta a avaliação da extensão do problema e das medidas corretivas adotadas. A Starlink, que já enfrenta questionamentos sobre o uso de sua rede em contextos militares, agora vê sua base de usuários potencialmente exposta a vigilância comercial.
Para os usuários da Starlink, a suspeita levanta questões práticas sobre privacidade. A empresa de Elon Musk não oferece, até o momento, ferramentas específicas para bloquear rastreamento por anúncios, e a natureza do serviço — que atribui IPs dinâmicos — dificulta a proteção individual. Especialistas recomendam o uso de VPNs e bloqueadores de anúncios, mas reconhecem que essas medidas têm eficácia limitada contra leilões em tempo real.
O caso também reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas de publicidade digital. Google e outras gigantes da tecnologia prometem revisar seus sistemas para evitar abusos, mas a complexidade dos leilões programáticos torna a fiscalização um desafio. Enquanto isso, a Shadow-Earth-79 continua operando, e a TrendAI afirma que novas amostras serão analisadas para monitorar a atividade.
O que esperar da investigação
A TrendAI não divulgou se compartilhará seus dados com autoridades regulatórias ou agências de proteção de dados. O relatório, porém, já circula entre pesquisadores de segurança e pode motivar investigações formais em países como o Brasil, onde a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) prevê sanções para tratamento irregular de informações pessoais. A fonte não detalhou se há indícios de violação da legislação brasileira.
Para a comunidade de inteligência, a suspeita sobre a Shadow-Earth-79 reforça a tese de que empresas privadas estão se tornando atores centrais na vigilância global. A combinação de anúncios direcionados, dados de localização e spyware comercial cria um cenário no qual a privacidade depende cada vez mais da boa-fé das plataformas. A Starlink, com sua cobertura global, torna-se um alvo natural para esse tipo de operação.
Enquanto as empresas não se pronunciam, os usuários da Starlink permanecem sem respostas claras. A recomendação de especialistas é monitorar atualizações de segurança e pressionar por transparência. O próximo passo da investigação pode envolver a identificação pública da Shadow-Earth-79, o que a TrendAI não descartou, mas também não confirmou.
