Fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA pode afetar relação bilateral
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A decisão do senador Flávio Bolsonaro de viajar para os Estados Unidos, logo após a derrota de seu pai, Jair Bolsonaro, no segundo turno das eleições presidenciais, pode gerar atritos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação é do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, que vê prejuízos para ambos os países. Em entrevista ao NeoFeed, Lafer afirmou que o movimento “afeta a relação entre o Brasil e os Estados Unidos” e que “perdem os dois países”.

A viagem ocorre em um momento delicado: o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia vetado a saída de Flávio do país e determinado a entrega de seus passaportes, ordem que o senador não cumpriu. Para Lafer, a situação coloca Flávio em uma posição “absolutamente constrangedora” e revela incoerência em seu discurso, já que ele não reconheceu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e agora busca apoio no exterior.

Relação comercial deve pesar mais que crise

Apesar do potencial de escalada, Lafer acredita que o fator decisivo será a relação comercial entre os dois países. Ele classifica Trump como “personalista e arbitrário”, mas também pragmático. “Os Estados Unidos têm muitos interesses comerciais com o Brasil, como no caso das terras raras, para dar um exemplo. Trump vai tratar disso da maneira como já funciona seu pensamento. Mas é bem capaz de ele ser contraditório. E não seria uma novidade”, disse.

O ex-chanceler lembra que Trump recentemente declarou ter simpatia por Lula, o que pode moderar eventuais retaliações. Ainda assim, a situação é inédita e exige cautela. A fonte não detalhou se houve contato prévio entre os governos sobre o caso.

Investigação e cooperação jurídica em xeque

No Brasil, as investigações contra Flávio Bolsonaro podem prosseguir independentemente de sua localização. Contudo, Lafer pondera que a cooperação jurídica com os Estados Unidos seria complexa, especialmente diante do descumprimento da ordem judicial. Ele não especificou quais mecanismos poderiam ser acionados, mas indicou que o caminho não é simples.

A possibilidade de asilo político por parte de Trump, embora não seja comum, não pode ser descartada, segundo Lafer. Isso adiciona uma camada de incerteza ao cenário, pois dependeria de decisões políticas do governo norte-americano.

Oposição à distância é improvável, diz Lafer

Questionado se Flávio poderia liderar uma oposição a partir do exterior, Lafer foi cético. “Não acredito que seja possível conduzir uma oposição e liderar um grupo político à distância. Não sei se ele tem condições de convocatória para fazer isso de longe”, afirmou. Para o ex-ministro, a ausência física enfraquece a capacidade de articulação política.

Essa avaliação sugere que o impacto da viagem pode ser mais simbólico do que prático no curto prazo, mas ainda assim relevante para a imagem do país e para a estabilidade das relações bilaterais.

Itamaraty deve desdramatizar e priorizar Brasil

Lafer defende que o Itamaraty atue para reduzir tensões. “No histórico do Itamaraty está a vocação para desdramatizar as circunstâncias e os problemas. Esse é um componente para o caminho da solução”, disse. Ele também pediu moderação, inclusive do presidente Lula. “Estamos na hora de moderação e de pensar exclusivamente no Brasil. Eu acredito que o bom senso vai acabar prevalecendo.”

Quanto às negociações sobre tarifas de importação impostas pelos EUA no ano passado, Lafer acredita que as discussões serão interrompidas temporariamente. “Precisa dar tempo ao tempo. A verdade é que essas questões não serão resolvidas agora. Mas acredito que serão retomadas em breve”, afirmou.

O episódio, portanto, coloca em jogo não apenas a situação jurídica de Flávio Bolsonaro, mas também o equilíbrio de uma relação estratégica para o Brasil. A forma como os governos conduzirem as próximas semanas será determinante para evitar danos maiores.

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