São Paulo, abril de 2026 — No Healthcare Innovation Show (HIS) 2026, Marcelo Mariani, executivo da SMED Tecnologia, volta ao centro do debate sobre transformação digital na saúde. Um ano após apresentar o prontuário eletrônico único do cidadão como infraestrutura pública digital, ele retorna com o que a SMED já colocou em prática e com números que transformaram essa visão em referência concreta para o setor.
Nesta entrevista, Mariani fala sobre o que mudou no mercado, o que não mudou na SMED, e por que a corrida pela inteligência artificial na saúde vai esbarrar, mais cedo ou mais tarde, no mesmo problema que ele tenta resolver há 24 anos: a qualidade do dado na origem.
Do conceito à prática em um ano
No HIS 2025, Mariani apresentou um conceito que ainda soava novo para muita gente: o prontuário eletrônico como infraestrutura pública digital. Um ano depois, o HIS 2026 coloca exatamente esse tema no centro da sua programação. Questionado sobre o que mudou, ele destaca a evolução do debate e a consolidação de casos reais.
O executivo aponta que a discussão amadureceu, saindo do campo teórico para a demonstração de resultados práticos. A transição de ideia para realidade marca um passo importante para o setor.
O modelo de Sergipe em destaque
Falando em Sergipe, Mariani apresentou esse case como um dos poucos modelos no mundo com essa escala em sistema público. Ao diferenciar o modelo de Sergipe de iniciativas como o NIES ou a própria RNDS federal, ele ressalta a singularidade da abordagem adotada.
Segundo ele, o modelo sergipano se destaca pela escala alcançada e pela integração efetiva dos dados de saúde. Essa experiência serve de referência para outras regiões do país.
IA exige dados de qualidade
O HIS 2026 tem inteligência artificial como um dos temas mais presentes — IA e governança, modelos preditivos, hospital preditivo. Sobre a relação entre IA e o tipo de infraestrutura que a SMED constrói, Mariani é direto: IA na saúde depende de uma condição que raramente é discutida com honestidade: a qualidade e a organização da base de dados.
Algoritmos treinados em dados fragmentados, inconsistentes ou incompletos produzem outputs que não servem à gestão e podem comprometer a assistência. Para ele, as empresas de Healthtech que mais se valorizam são aquelas geradoras de informação de qualidade, pois a informação é o verdadeiro diferencial competitivo.
Brasil à frente na corrida digital
O HIS 2026 confirmou Portugal como país convidado, depois da Estônia no ano anterior. A Estônia apareceu também na apresentação do HIS 2025 como pioneira no prontuário nacional. Perguntado se o Brasil está à frente ou atrás nessa corrida, Mariani afirma que o Brasil está mais avançado do que o debate interno reconhece.
Temos um case real, escalável, com custo dez vezes menor que soluções americanas e arquitetura preparada para crescer. O que falta não é tecnologia — é reconhecer o que já foi construído e ter a decisão política de escalar. Ele reconhece que o Brasil ainda tem grandes vazios assistenciais, especialmente no Norte e Nordeste, porém a informatização deve ser vista como uma ferramenta para ajudar a preencher tais lacunas.
Sustentabilidade financeira em foco
Além da IA e da transformação digital, o HIS 2026 traz um tema que estava ausente em edições anteriores com essa força: sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde. Sobre como a SMED se posiciona nesse debate, Mariani acredita que a empresa tem uma contribuição real e diferenciada.
O setor vive uma contradição: pressão crescente por inovação e redução de orçamentos. Hospitais precisam de tecnologia mais sofisticada e têm menos dinheiro para gastar. Nesse contexto, a eficiência operacional torna-se essencial.
Papel da iniciativa privada
Um dos debates mais esperados do HIS 2026 é sobre como fazer a inovação acontecer na saúde pública, com acesso e escala. Na visão de Mariani, a minha defesa é clara: o Estado precisa definir os padrões técnicos, as regras de acesso, a governança e a segurança dos dados. Mas a execução, a capacidade de mobilização e a velocidade de implantação precisam vir da iniciativa privada.
Esse é o modelo que queremos ver replicado. A parceria entre público e privado, com papéis bem definidos, pode acelerar a transformação digital no setor.
One Health e a agenda do setor
O HIS 2025 foi a edição em que Mariani apresentou pela primeira vez o conceito de One Health para esse público. O HIS 2026 já tem na programação debates sobre saúde conectada, monitoramento contínuo e dados integrados. Sobre onde vê o One Health na agenda do setor hoje, ele destaca que a SMED já construiu a arquitetura que suporta essa expansão — cloud nativo, APIs abertas, padrões internacionais como FHIR.
O trabalho técnico está feito. O que falta é a decisão de política pública para avançar. A integração de dados de saúde humana, animal e ambiental depende de vontade política e coordenação.
Mensagem final da SMED
Para fechar, o HIS 2026 tem como proposta central discutir não apenas o que inovar, mas como fazer a inovação acontecer. A mensagem que a SMED leva para essa edição é a mesma que defendo há anos, mas que o mercado agora está mais preparado para ouvir: inovação na saúde começa pela organização dos processos, não pela tecnologia.
Vinte e quatro anos trabalhando na gestão de hospitais públicos nos ensinaram que o maior problema não é falta de tecnologia — é falta de processo organizado para que a tecnologia funcione. Quando você resolve isso, tudo o mais se torna possível: prontuário único, IA, dados preditivos, One Health.
