A produtora brasileira de biocombustíveis FS e o Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, buscam comprar dívidas hoje em posse de credores da Raízen e que podem ser convertidas futuramente em ações, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. As discussões ainda estão em estágio preliminar e não há garantia de que resultarão em uma transação, acrescentaram. A FS contratou o Morgan Stanley para assessorá-la na potencial aquisição, disseram as pessoas, que pediram para não ser identificadas porque as conversas são privadas.
Interesse em créditos conversíveis
FS, Mubadala e IG4 buscam adquirir dívidas da Raízen antes que elas sejam convertidas em ações, disseram as pessoas. O IG4 Capital, que em junho havia manifestado interesse em comprar dívida suficiente para obter o controle da Raízen, agora busca adquirir apenas créditos vinculados à divisão de açúcar e etanol da companhia, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Essa mudança de estratégia indica um foco mais específico em ativos operacionais, em vez de uma tomada de controle integral. A fonte não detalhou os valores envolvidos nas potenciais aquisições.
As vendas podem ocorrer como parte da ampla reestruturação da companhia de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis, que está no epicentro de uma das maiores reestruturações de dívida corporativa já realizadas no Brasil. A empresa, controlada conjuntamente pela Shell e pela Cosan, de Rubens Ometto, chegou a um acordo com credores em março para reestruturar extrajudicialmente cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. Esse montante expressivo reflete a gravidade da crise financeira enfrentada pela Raízen.
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Contexto da crise na Raízen
Os problemas financeiros da Raízen se intensificaram no início deste ano, à medida que sua posição de caixa se deteriorou e seus títulos de dívida despencaram após uma série de rebaixamentos de rating. A companhia vem enfrentando dificuldades decorrentes de uma série de decisões estratégicas malsucedidas, juros elevados por períodos prolongados e safras fracas de cana-de-açúcar. Esses fatores combinados pressionaram a liquidez e a capacidade de honrar compromissos financeiros.
Como parte de sua reestruturação, os credores concordaram com conversões de dívida em ações que lhes darão mais de 80% do capital da companhia. Esse mecanismo diluirá significativamente os atuais acionistas, incluindo Shell e Cosan. A empresa também tem buscado vender ativos como parte dos esforços para reduzir sua alavancagem – em alguns casos, de forma bem-sucedida, embora ainda insuficiente dado o volume de dívidas. A fonte não detalhou quais ativos foram vendidos ou estão em negociação.
Perfil dos potenciais compradores
A FS é uma das maiores produtoras de etanol de milho do Brasil e tem suas raízes em Mato Grosso, um dos principais estados produtores agrícolas do país. O Summit Agricultural Group, com sede em Iowa, tem uma fatia no capital da empresa. Em julho, a trading agrícola Amaggi adquiriu uma participação de 40% na produtora de etanol, em uma operação que incluiu um aporte de capital de US$ 100 milhões na FS por meio de uma emissão primária de ações.
Esse movimento fortaleceu o caixa da FS e ampliou sua capacidade de investimento.
O Mubadala, por sua vez, é um fundo soberano com histórico de investimentos em infraestrutura e energia no Brasil. Sua possível entrada na estrutura de capital da Raízen, por meio da compra de dívida conversível, poderia representar uma aposta de longo prazo no setor de biocombustíveis. O IG4 Capital, gestora de private equity com foco em situações especiais, já demonstrou interesse anterior no controle da Raízen, mas agora direciona sua atenção para a divisão de açúcar e etanol. A fonte não detalhou os motivos da mudança de escopo do IG4.
Desdobramentos e incertezas
As negociações ainda estão em fase inicial, e não há garantia de que qualquer transação será concluída. A complexidade da reestruturação da Raízen, que envolve múltiplos credores e classes de dívida, pode dificultar a aquisição de créditos específicos. Além disso, a conversão de dívida em ações está sujeita a condições acordadas com os credores, o que pode afetar o valor e a atratividade dos papéis para os potenciais compradores.
Morgan Stanley, IG4, FS e Raízen não quiseram comentar. O silêncio das partes envolvidas é comum em negociações privadas, mas também reflete a sensibilidade do tema em um momento de reestruturação profunda. A fonte não detalhou prazos para a conclusão das conversas ou eventuais próximos passos.
Impactos para o setor
A possível entrada de novos investidores na Raízen, ainda que por meio de dívida conversível, pode sinalizar confiança no potencial de recuperação da companhia. O setor de biocombustíveis no Brasil tem atraído interesse de players estratégicos e financeiros, especialmente diante da demanda crescente por etanol e da transição energética. A FS, como concorrente direta em etanol de milho, poderia obter sinergias operacionais ou acesso a ativos complementares caso a transação avance.
Por outro lado, a elevada alavancagem da Raízen e a diluição dos acionistas atuais representam riscos significativos. Qualquer comprador de dívida conversível precisará avaliar cuidadosamente o valor de recuperação e as perspectivas de geração de caixa da empresa. A fonte não detalhou as condições financeiras das potenciais ofertas.
Próximos passos possíveis
Se as negociações avançarem, os próximos passos podem incluir due diligence, definição de preço e estruturação da aquisição dos créditos. A participação do Morgan Stanley como assessor da FS sugere que a empresa está buscando uma análise financeira robusta antes de qualquer compromisso. O envolvimento de um banco de investimento também pode facilitar a intermediação com os credores atuais da Raízen.
Enquanto isso, a Raízen continua executando seu plano de reestruturação, que inclui a venda de ativos e a conversão de dívida em ações. O desfecho dessas iniciativas será determinante para a estrutura societária futura da companhia e para o interesse de investidores como FS, Mubadala e IG4. A fonte não detalhou se há outros potenciais compradores interessados nos créditos.
