Mladić homenageado em Belgrado sem honras de Estado
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O corpo de Ratko Mladić, ex-comandante militar sérvio-bósnio condenado por genocídio e crimes de guerra, chegou a Belgrado na quinta-feira, vindo de Haia, num avião do governo sérvio. Mladić morreu na semana passada enquanto cumpria pena de prisão perpétua. O funeral está marcado para esta segunda-feira, mas sem honras de Estado ou militares, segundo apurou a Euronews.

Chegada discreta e escolta policial

Militares do exército sérvio levaram o caixão com o corpo de Mladić, envolto na bandeira nacional, do avião para uma carrinha cor de vinho sem identificação. O veículo seguiu escoltado pela polícia pela principal autoestrada de Belgrado. No avião, estavam o ministro da Justiça da Sérvia, Nenad Vujić, o filho de Mladić, Darko, e dois antigos auxiliares militares. Inicialmente, Vujić havia anunciado que o país concederia a Mladić “todas as honras militares e de Estado”.

Autópsia e exposição do caixão

O corpo foi transferido para o hospital militar de Belgrado para autópsia. Na manhã de segunda-feira, o caixão será exposto numa igreja perto do cemitério de Košutnjak, onde ocorrerá o sepultamento ao longo do dia, conforme anunciou a família na sexta-feira. A fonte não detalhou o horário exato da cerimônia.

Sem honras oficiais nem presença de autoridades

Mladić será sepultado sem honras de Estado ou militares, e sem a presença de titulares de cargos em funções, incluindo o presidente Aleksandar Vučić, o primeiro-ministro e o presidente do parlamento. Não haverá salvas de artilharia nem presença militar cerimonial. O ex-comandante também não será enterrado na Alameda dos Grandes nem na Alameda dos Cidadãos Ilustres, apesar dos pedidos nesse sentido.

Organização por associação de generais reformados

As autoridades sérvias esclareceram que a comemoração de sábado não foi organizada pelo Estado, mas por uma associação de generais reformados. A família de Mladić indicou que ele será sepultado ao lado da filha, que morreu por suicídio na década de 1990, segundo meios de comunicação locais. Enquanto esteve detido no tribunal de Haia, Belgrado contribuiu para cobrir as despesas pessoais de Mladić e as visitas da família, e pediu repetidamente uma libertação antecipada por motivos humanitários, devido à degradação do seu estado de saúde nos últimos anos.

Contexto histórico e condenações

Depois de a Bósnia declarar a independência da Jugoslávia, no início de 1992, seguindo o exemplo da Eslovénia e da Croácia, os dirigentes sérvios da Bósnia, apoiados pelo governo de Belgrado liderado por Slobodan Milošević, criaram uma entidade paraestatal própria. A ofensiva militar que se seguiu, liderada por Mladić — um oficial de carreira do exército jugoslavo que também participou nos combates na vizinha Croácia — tinha como objetivo limpar etnicamente o máximo possível do território do país das outras duas comunidades, bosníacos e croatas.

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (TPIJ) condenou Mladić por genocídio por ter organizado execuções sumárias de mais de 8 000 homens e rapazes bosníacos em Srebrenica, em julho de 1995, considerado o pior massacre em solo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi igualmente considerado culpado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante o cerco de Sarajevo, o mais longo cerco a uma capital na guerra moderna.

As suas tropas, posicionadas nas colinas em redor, aterrorizavam os habitantes da capital bósnia com bombardeamentos e tiros de franco-atiradores diários durante quase quatro anos, após o início da guerra, no começo de 1992.

Reações e ausência de Vučić

O presidente sérvio, Aleksandar Vučić, prevê que admiradores de Mladić — que o consideram um herói apesar da condenação — possam acorrer em grande número ao funeral. “Falei com a família de Mladić e desejo que tudo decorra de forma digna”, acrescentou Vučić. Mais tarde, o presidente sérvio afirmou que não estará presente no funeral de Mladić devido a uma visita de alto nível já agendada.

“Tenho na segunda-feira e durante todo o dia de terça-feira uma visita oficial do presidente do Uzbequistão (Shavkat Mirziyoyev), agendada há quatro meses”, declarou Vučić na sexta-feira, numa altura em que percorre o país para apresentar projetos de desenvolvimento de infraestruturas. “Terei feito tudo o que era necessário e tudo o que era possível para que isto decorra de forma digna, séria e responsável, para que o Estado se comporte devidamente? Foi exatamente isso que fiz”, acrescentou.

Homenagens e reação europeia

Após a morte de Mladić, na quinta-feira passada, milhares de sérvios realizaram vigílias e marchas em sua honra, suscitando condenações de Bruxelas e de outros pontos da Europa. A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, cancelou na sexta-feira uma visita prevista à Sérvia, país candidato de longa data à adesão ao bloco de 27 membros. A fonte não detalhou os motivos exatos do cancelamento.

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