Mineração líquida extrai magnésio da salmoura de dessalinização
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Pesquisadores japoneses desenvolveram uma técnica inovadora que permite extrair magnésio diretamente da salmoura gerada no processo de dessalinização da água do mar, sem a necessidade de escavações ou mineração convencional.

O método, batizado de “mineração líquida”, foi criado por Toranosuke Horikawa e Masatoshi Kondo, do Instituto de Ciência de Tóquio, e descrito em artigo publicado na revista Desalination em 19 de outubro de 2026. A abordagem resolve dois problemas de uma só vez: o descarte da salmoura, um subproduto problemático da dessalinização, e a demanda por magnésio, um metal essencial para diversas indústrias.

O desafio da salmoura na dessalinização

Para que a dessalinização cumpra sua promessa de fornecer água limpa para milhões de pessoas em todo o mundo, é necessário resolver o problema da salmoura gerada nesse processo de transformar a água do mar em água potável. A salmoura é uma solução altamente concentrada de sais que sobra após a remoção da água doce; seu descarte inadequado pode causar danos ambientais significativos, como o aumento da salinidade em ecossistemas marinhos costeiros. Atualmente, grande parte dessa salmoura é devolvida ao oceano, muitas vezes com impactos negativos sobre a vida aquática.

Os pesquisadores descrevem o conceito como “mineração sem escavação”: obter recursos valiosos não de minérios recém-extraídos, mas de fluxos d’água atualmente tratados como rejeitos. Essa mudança de paradigma transforma um passivo ambiental em uma fonte de matéria-prima.

Limitações da mineração convencional de magnésio

Enquanto isso, os métodos convencionais de mineração e beneficiamento do magnésio exigem quantidades substanciais de produtos químicos ou eletricidade e geram resíduos secundários. A extração tradicional do magnésio frequentemente envolve processos como a eletrólise de cloretos fundidos ou a redução térmica de dolomita, que demandam altas temperaturas e consumo energético intensivo. Além disso, essas operações produzem subprodutos como cloro gasoso e escórias, que requerem tratamento e disposição adequados. A mineração de magnésio também está sujeita a questões geopolíticas e de disponibilidade de minérios de alta pureza.

Diante desse cenário, a busca por fontes alternativas e processos mais limpos tornou-se uma prioridade para a indústria e para a pesquisa acadêmica.

Como funciona a mineração líquida

O novo processo usa metal líquido – uma liga de baixo ponto de fusão à base de estanho – para recuperar água doce e magnésio de salmouras concentradas. A técnica consiste em uma combinação da destilação por contato direto com o metal líquido e desgaseificação a vácuo. Em termos práticos, a salmoura é colocada em contato com o estanho líquido aquecido; a água evapora instantaneamente, deixando para trás os sais dissolvidos. O vapor de água é então condensado, resultando em água destilada de alta pureza.

Os sais, incluindo o magnésio, precipitam e podem ser recuperados separadamente. A desgaseificação a vácuo é utilizada para remover gases dissolvidos e facilitar a cristalização seletiva do magnésio. Esse método dispensa o uso de grandes quantidades de reagentes químicos e opera em temperaturas mais baixas do que os processos pirometalúrgicos tradicionais.

Resultados expressivos em escala laboratorial

Nos experimentos de demonstração, em escala de laboratório, quando a salmoura foi processada a 400 ºC, a concentração de magnésio no precipitado atingiu cerca de 280 vezes a da salmoura original, e a razão Mg/Na aumentou cerca de 5.300 vezes. Esses números indicam uma separação altamente eficiente entre o magnésio e o sódio, o que é crucial para a pureza do produto final. A alta razão Mg/Na significa que o magnésio recuperado está praticamente livre de contaminação por sódio, um dos principais desafios no processamento de salmouras.

Além disso, a água destilada obtida no processo apresentou qualidade suficiente para atender aos padrões de potabilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS). “A pureza da água destilada foi suficientemente alta para atender ao padrão de água potável da OMS em nosso estudo”, escreveram os pesquisadores. Esses resultados demonstram o potencial da técnica para produzir simultaneamente dois produtos de valor: água potável e magnésio de alta pureza.

Vantagens ambientais e econômicas

A mineração líquida oferece benefícios ambientais significativos em comparação com os métodos convencionais. Ao aproveitar a salmoura que seria descartada, o processo reduz a poluição marinha e transforma um rejeito em recurso. A ausência de escavações elimina os impactos associados à mineração a céu aberto ou subterrânea, como desmatamento, erosão e geração de rejeitos sólidos. O uso de metal líquido reciclável também contribui para a sustentabilidade, pois o estanho pode ser reutilizado em ciclos contínuos.

Do ponto de vista econômico, a integração com plantas de dessalinização existentes poderia criar uma nova fonte de receita para essas instalações, que atualmente arcam com os custos de descarte da salmoura. A produção local de magnésio também reduziria a dependência de importações e os custos de transporte. No entanto, a fonte não detalhou estimativas de custo ou viabilidade econômica em escala industrial.

Próximos passos rumo à aplicação prática

O próximo passo será desenvolver um sistema contínuo, no qual o estanho líquido circula por meio de produção em água doce, desgaseificação a vácuo, recuperação do magnésio e reutilização do estanho. Esse sistema em fluxo contínuo é essencial para viabilizar a operação em larga escala e integrar o processo às plantas de dessalinização existentes. Os pesquisadores precisarão otimizar parâmetros como temperatura, tempo de contato e taxa de circulação do metal líquido para maximizar a eficiência e minimizar perdas.

Também será necessário avaliar a durabilidade do estanho ao longo de múltiplos ciclos e a pureza do magnésio obtido em condições contínuas. A fonte não detalhou prazos para a implementação industrial nem os desafios técnicos remanescentes. Ainda assim, os resultados laboratoriais apontam para um caminho promissor na busca por processos mais limpos e eficientes para a obtenção de recursos estratégicos.

O estudo foi publicado na revista Desalination com o título “Recovery of magnesium from seawater brine using liquid tin direct-contact desalination assisted by vacuum degassing” e DOI 10.1016/j.desal.2026.120582. A pesquisa representa um avanço na interseção entre dessalinização, recuperação de recursos e metalurgia sustentável, com potencial para transformar a gestão de resíduos salinos em uma oportunidade econômica e ambiental.

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