Custos do setor elétrico põem em risco o mercado livre de energia
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Uma pesquisa inédita da operadora de energia Bow-e, com mais de 200 consumidores em todo o País, revela que 72,6% dos entrevistados gostariam de decidir de qual empresa comprar energia elétrica a partir de 2028. A partir desse ano, a opção de escolha estará disponível a todos os consumidores residenciais com a abertura do mercado livre de energia, atualmente restrito a indústrias e empresas de grande e médio porte. Mas os custos do setor elétrico ameaçam “apagar” essa corrida, pois a promessa de tarifas mais baixas pode não se concretizar diante das distorções do setor.

Desejo por escolha cresce no país

Na pesquisa, 72,6% dos entrevistados afirmaram querer escolher o fornecedor a partir de 2028. No mercado livre, os preços podem ser até 30% mais baixos que os oferecidos pelas distribuidoras do mercado cativo. Essa é a principal atração para migração. Porém, distorções na formação dos preços da eletricidade, agravadas pelo acionamento mais frequente de térmicas e por modelos que elevam artificialmente o custo da energia, ameaçam a promessa de tarifas menores. A abertura em 2028 é uma oportunidade histórica, mas cercada de desafios estruturais significativos, captados pela pesquisa da Bow-e.

Preços e fidelização no ambiente livre

Segundo a conclusão da pesquisa, o preço naturalmente será a porta de entrada para a competição, mas fatores como qualidade do atendimento, transparência e serviços agregados passam a ser determinantes para fidelizar o consumidor no ambiente livre. Os problemas atuais do setor elétrico incluem:

  • crise de liquidez das comercializadoras;
  • volatilidade do mercado de curto prazo;
  • risco de retração dos contratos de longo prazo.

Esses elementos adicionam incerteza ao futuro da abertura. Assim, a redução de custos pode não ser suficiente para garantir a adesão em massa.

Tarifa brasileira é uma das mais caras

Um levantamento do Centro de Liderança Pública (CLP) avaliou o custo da energia residencial em 138 países, ajustado pela paridade do poder de compra (PPC). A tarifa brasileira é de US$ 0,357 por kWh, cerca de R$ 1,83, valor superior ao praticado em cerca de 70 países, incluindo:

  • China (US$ 0,155/kWh);
  • Canadá (US$ 0,146/kWh);
  • Noruega (US$ 0,095/kWh).

O estudo do CLP concluiu que, no cenário mais ambicioso, uma reforma estrutural no setor elétrico poderia reduzir a tarifa em até 32%. Para Ciro Neto, da Bow-e, a contradição entre geração barata e tarifa cara é central no debate do setor elétrico brasileiro. Essa comparação internacional evidencia a necessidade de mudanças.

Mecanismos de preços e incertezas

No centro da discussão estão o LRCAP e o Celar.

LRCAP

O LRCAP define o limite regulatório de contratação de térmicas e hidrelétricas para abertura do mercado.

Celar

O Celar é o indicador de referência que as comercializadoras usam para formar preços futuros de energia, especialmente em contratos de médio e longo prazo no mercado livre, de 2027 até 2032.

Os preços de energia para 2028 já estão sendo formados por modelos que incorporam risco elevado, incluindo acionamento de térmicas, hidrologia ruim, incerteza regulatória e volatilidade de preços do mercado livre. Tais mecanismos, embora técnicos, afetam diretamente a conta do consumidor.

Medidas em análise e expectativas

Para mitigar o risco das térmicas, o leilão de baterias é uma medida pensada para reduzir o acionamento de termelétricas nos horários de pico, suavizando a tarifa. No entanto, o efeito combinado das iniciativas não deve gerar reduções superiores a 20% para o consumidor final. Isso significa que a queda de preços pode ficar abaixo do esperado. Para sustentar a expansão do mercado, o foco será reduzir o Custo de Aquisição de Cliente (CAC) e automatizar o atendimento. A pesquisa mostra que, além do preço, a experiência do consumidor será crucial para a fidelização no novo ambiente.

Considerações finais

Diante desse cenário, a abertura do mercado livre de energia em 2028 representa uma oportunidade real, mas depende do enfrentamento de distorções e incertezas. As medidas anunciadas, como o leilão de baterias, e a atenção à experiência do consumidor podem ajudar, mas não eliminam a necessidade de uma reforma mais ampla. O desejo dos consumidores por liberdade de escolha está claro; falta garantir que a conta de luz acompanhe essa expectativa.

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