A discussão sobre a reforma tributária no Brasil tem mobilizado especialistas, empresários e a população em geral. No entanto, a forma como o debate vem sendo conduzido preocupa a advogada autora do artigo que inspira esta matéria. Em suas reflexões, ela aponta que, em vez de uma análise técnica e serena, o tema tem sido dominado por posturas passionais que mais atrapalham do que ajudam.
Segundo a autora, o pensador Adam Grant, em seu livro “Pense de novo: o poder de saber o que você não sabe”, descreve três mentalidades comuns ao pensar e falar: a do pastor, que prega para proteger suas crenças; a do advogado, que argumenta para defender sua posição; e a do político, que faz campanha para ganhar apoio. Esses modos, afirma ela, dominam o debate tributário atual, comprometendo a qualidade das discussões.
Mentalidades que travam o debate
“De repente, todo mundo, conhecendo ou não de fato o conteúdo da reforma tributária, virou especialista no assunto e assumiu um ou mais dos três modos de pensar”, escreve a advogada. Essa postura, segundo ela, dificulta uma análise ponderada e não apaixonada do tema, que deixou de ser opção para quem quer ser ouvido ou lido. A polarização resultante impede que se chegue a um entendimento comum sobre as mudanças propostas.
A autora compara o cenário brasileiro à descrição de Grant, onde a polarização impede uma discussão saudável. “Essa polarização não é exclusiva da reforma tributária, e parece ser uma constante atualmente”, observa. Ela alerta que o ego e a vaidade podem contaminar o debate, fazendo ressurgir os modos pastor, advogado e político, em detrimento de uma análise objetiva e baseada em evidências.
Para superar esse impasse, a advogada propõe a adoção do modo cientista, que se caracteriza pela busca de conhecimento, teste de hipóteses e disposição para mudar de opinião diante de novas evidências. Esse modo, segundo ela, não é exclusivo da reforma tributária, mas uma necessidade geral, embora no direito tributário sempre tenha havido grande dificuldade de independência acadêmica.
O papel do cientista no debate
O modo cientista, conforme descrito por Grant e citado pela autora, envolve questionar suposições, buscar dados confiáveis e estar aberto a revisar posições. No contexto da reforma tributária, isso significaria analisar os impactos econômicos, sociais e jurídicos das propostas com rigor técnico, sem ceder a pressões políticas ou interesses pessoais. A advogada ressalta que essa abordagem é essencial para que o debate seja produtivo e conduza a decisões informadas.
“Será que ainda faz sentido usar um sistema concebido para outra realidade nesse mundo digital com tantas mudanças?”, questiona a advogada. A pergunta reflete a necessidade de repensar o modelo tributário à luz das transformações tecnológicas e econômicas, mas sem abrir mão da análise criteriosa. Ela destaca que a independência acadêmica no direito tributário sempre foi um desafio, o que torna ainda mais urgente a adoção de uma postura científica.
Para contribuir com um debate eficaz, a autora pede que os estudiosos não pautem suas manifestações com base no que dará mais visibilidade, clientela ou popularidade. Em vez disso, devem buscar informar a população e transmitir conhecimento aos empresários com dados reais, evitando terrorismos e números soltos sem comprovação. Essa conduta, segundo ela, é fundamental para restaurar a confiança no debate público e promover decisões mais justas.
Evitar o terrorismo informativo
Um dos principais problemas apontados pela advogada é o uso de informações alarmistas ou sem fundamento para influenciar a opinião pública. Ela cita a necessidade de evitar “terrorismos e números soltos sem comprovação”, que apenas aumentam a ansiedade e a desinformação. Em vez disso, defende a divulgação de dados reais e análises transparentes, que permitam à população compreender as reais implicações da reforma tributária.
A autora também ressalta que a busca por visibilidade ou ganhos pessoais pode distorcer o debate. Quando estudiosos e formadores de opinião priorizam a popularidade em detrimento da verdade, o resultado é um ambiente de desconfiança e confusão. Por isso, ela insiste na importância de uma conduta ética e responsável, que coloque o interesse público acima de interesses particulares.
Além disso, a advogada chama a atenção para a responsabilidade dos meios de comunicação e das redes sociais na disseminação de informações sobre a reforma tributária. Ela sugere que todos os envolvidos no debate adotem uma postura mais crítica e questionadora, verificando a veracidade das informações antes de compartilhá-las. Somente assim será possível construir um diálogo construtivo e baseado em fatos.
Um chamado à reflexão
O artigo da advogada é um convite à reflexão sobre como estamos discutindo temas complexos como a reforma tributária. Em um momento de profundas transformações econômicas e sociais, a capacidade de pensar de forma científica — com curiosidade, humildade e rigor — torna-se indispensável. A autora lembra que o modo cientista não é uma opção, mas uma necessidade para quem deseja contribuir de maneira significativa para o debate público.
Ao final, fica a mensagem de que a reforma tributária não deve ser tratada como uma arena de disputas ideológicas, mas como um espaço de construção coletiva de soluções. Para isso, é preciso abandonar as posturas de pastor, advogado e político, e abraçar a postura do cientista, que busca entender antes de julgar, e informar antes de convencer. A fonte não detalhou exemplos específicos de como essa mudança pode ocorrer na prática, mas o apelo é claro: mais ciência, menos paixão.
