A fabricante chinesa de chips de memória DRAM, CXMT, fez sua estrondosa entrada na bolsa de valores nesta semana. No primeiro dia de negociação, as ações da empresa saltaram 466%, em uma das valorizações mais expressivas do ano. A oferta pública inicial movimentou US$ 8,5 bilhões, com a colocação de 6,7 bilhões de papéis, e se tornou a maior da China continental desde o IPO do Banco Agrícola da China, em 2010.
O feito ressalta o momento de euforia em torno dos semicondutores e reposiciona o país na acirrada corrida tecnológica global. A operação também sinaliza que a China está determinada a reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros de memória.
Oferta bilionária alimenta otimismo
O entusiasmo dos investidores foi tamanho que a CXMT ainda reservou um lote suplementar de 1 bilhão de ações. Se exercida, a opção pode injetar recursos adicionais nos cofres da companhia.
Tilly Zhang, analista de tecnologia e política industrial da Gavekal Dragonomics em Pequim, traduziu a surpresa do mercado: “Sabíamos que seria um grande IPO. Mesmo assim, é surpreendente o entusiasmo das pessoas.” A declaração ecoa o sentimento de que a fabricante chinesa chegou para disputar espaço em um setor até então dominado por poucos gigantes.
Fábricas em Pequim e Hefei miram o mundo
Sediada em Hefei, na província de Anhui, a CXMT já opera três unidades de fabricação de wafers DRAM, estrategicamente localizadas em Pequim e na própria Hefei. No prospecto entregue aos reguladores, a empresa foi clara: “Estamos comprometida em expandir continuamente a capacidade de produção e aumentar nossa participação no mercado global”. A ambição encontra referência na concorrência: a americana Micron, por exemplo, produz 385.000 wafers por mês. Os investidores apostam que a companhia chinesa repetirá o roteiro de crescimento acelerado visto em outras indústrias do país.
Demanda por IA inflaciona mercado de DRAM
O contexto de mercado favorece a CXMT. Os preços da memória DRAM vêm disparando, puxados pela demanda de empresas de inteligência artificial. A escassez de chips pressionou as cadeias de suprimentos, e os consumidores já sentem o impacto nos preços de iPhones, computadores e até automóveis.
Em meio a esse cenário, a receita da CXMT cresceu com a venda de chips de baixo custo para eletrônicos domésticos — um segmento que as grandes fabricantes vinham negligenciando ao concentrar recursos nos sofisticados chips de memória de alta largura de banda (HBM) para data centers. A tendência é que a necessidade por DRAM continue crescendo, à medida que mais dispositivos se tornam ‘inteligentes’.
Corrida pelo HBM esbarra em restrições dos EUA
O próximo passo da CXMT é entrar no lucrativo mercado de HBM. A empresa confirmou que está desenvolvendo esses chips, mas reconhece que ainda está atrás dos rivais globais. O principal entrave são os controles de exportação impostos pelos Estados Unidos, que bloqueiam o acesso às máquinas de litografia ultravioleta da ASML, essenciais para a produção de chips de última geração.
A analista Tilly Zhang reforçou o ceticismo: “Ainda não há produção em massa desses chips”. Por ora, a dependência de equipamentos estrangeiros mantém a indústria chinesa em desvantagem.
Atrito Apple-Micron e o peso do IPO da SK Hynix
A ascensão da CXMT também reacendeu tensões comerciais. A Apple está em conflito com a Micron, que afirma que permitir que a fabricante chinesa venda para empresas de tecnologia americanas prejudicaria a indústria local. O embate mostra como a disputa por semicondutores pode influenciar as relações corporativas.
Enquanto isso, a sul-coreana SK Hynix concluiu seu próprio IPO na Bolsa de Nova York duas semanas antes, arrecadando mais de US$ 26 bilhões, um volume que reforça a dimensão do mercado de memórias. A tensão entre Washington e Pequim deve continuar moldando o ambiente de negócios para as fabricantes chinesas.
YMTC: a outra ponta da estratégia chinesa
Logo atrás da CXMT no ranking doméstico figura a Yangtze Memory Technologies (YMTC), focada em memória flash NAND — aquela que armazena dados em dispositivos como smartphones. Juntas, as duas empresas formam a vanguarda da ambição chinesa de construir uma indústria de semicondutores autossuficiente. O sucesso do IPO da CXMT injeta ânimo e capital para acelerar esse plano, mas os obstáculos tecnológicos e geopolíticos não devem ser subestimados. Enquanto isso, as rivais não ficarão paradas.
O IPO histórico da CXMT não é apenas um evento financeiro; ele simboliza o reposicionamento da China na corrida global dos chips. A valorização de 466% e o volume recorde de US$ 8,5 bilhões mostram que o mercado aposta na superação das barreiras impostas pelos Estados Unidos. Se a empresa conseguirá traduzir o entusiasmo em produção de escala e tecnologia de ponta, porém, ainda é uma incógnita.
