A adoção de inteligência artificial no setor jurídico pode não significar menos horas de trabalho para os advogados, mas sim uma mudança na forma como esse tempo é utilizado. A afirmação é de Anna, executiva da Harvey, empresa de tecnologia jurídica, que participou de um debate sobre o tema. A discussão ganha relevância especialmente nos Estados Unidos, onde a cobrança por hora é predominante, mas também ecoa no Brasil, como observou Marina Procknor, sócia do escritório Mattos Filho.

Durante o evento, Anna explicou que a tecnologia libera tempo antes dedicado a tarefas repetitivas, mas isso não implica necessariamente em redução da jornada. Para ela, existem três caminhos possíveis para o tempo liberado pelo uso da IA. O primeiro seria fazer em três horas o que antes levava dez e simplesmente ficar com as sete horas restantes livres. A executiva considera esse cenário improvável.

Os três destinos do tempo liberado

O segundo caminho, segundo Anna, seria usar as horas economizadas para atender mais clientes ou aprofundar a análise de casos complexos. Isso poderia, na prática, aumentar a carga de trabalho do advogado, pois a eficiência gerada pela IA abriria espaço para mais demandas. A fonte não detalhou se esse cenário é o mais comum, mas indicou que ele reflete a realidade de muitos escritórios que buscam crescer.

O terceiro caminho seria encontrar novas formas de monetizar a tecnologia. Anna diz já ver escritórios, inclusive no Brasil, criando agentes e fluxos de trabalho e pensando em como vendê-los. Essa abordagem transforma a IA de ferramenta interna em produto comercializável, gerando receita adicional. A transição, porém, exige investimento em desenvolvimento e uma mudança cultural dentro das bancas.

Modelo de negócio em debate

Roberta, representante do escritório A&O Shearman, destacou que o modelo de negócio da firma não é criar produtos de tecnologia. Questionada por Marina sobre se produto e serviço concorrem entre si, respondeu: “Não compete. Uma aumenta a outra. O produto aumenta o serviço, e a assessoria sempre será o nosso core”. A fala indica uma visão complementar, na qual a tecnologia fortalece a entrega jurídica sem substituí-la.

Um exemplo citado por Roberta é o Contract Matrix, produto licenciado pelo escritório a clientes. A ferramenta auxilia na gestão de contratos, mas não substitui o aconselhamento jurídico personalizado. Roberta também explicou que, quando precisa ganhar velocidade ou escala, a estratégia do A&O costuma ser recorrer a fornecedores especializados em tecnologia, em vez de desenvolver internamente tudo o que utiliza. Essa postura pragmática permite que o escritório foque em sua expertise principal.

Impacto no mercado brasileiro

No Brasil, a precificação por hora também é comum, o que torna a discussão igualmente pertinente. Marina Procknor, do Mattos Filho, observou que o modelo de cobrança pode ser afetado se a IA reduzir o tempo necessário para tarefas específicas. A advogada não detalhou se o escritório já adota alguma estratégia de precificação alternativa, mas o debate sugere que o tema está na pauta das grandes bancas.

A possibilidade de vender produtos tecnológicos, como agentes e fluxos de trabalho, abre uma nova frente de receita para escritórios brasileiros. Anna mencionou que já vê iniciativas nesse sentido no país, embora não tenha citado exemplos concretos. A tendência, se confirmada, pode alterar a estrutura de custos e a relação com os clientes, que passariam a pagar também por soluções padronizadas.

Desafios e perspectivas

A adoção de IA no direito levanta questões sobre ética, qualidade e responsabilidade. A fonte não detalhou como os escritórios estão lidando com esses aspectos, mas a fala de Roberta sugere que a assessoria humana continua sendo o pilar central. A tecnologia, nesse contexto, atua como aceleradora, não como substituta.

Para os advogados, o desafio será equilibrar a eficiência trazida pela IA com a necessidade de manter a profundidade analítica. O cenário descrito por Anna aponta para uma profissão em transformação, na qual o tempo liberado pode ser reinvestido em atividades de maior valor agregado ou em novos modelos de negócio. A fonte não detalhou projeções de adoção, mas o debate indica que o tema seguirá em evidência.

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