Os Houthis iemenitas, apoiados por Teerã, capturaram mais ilhas no sul do mar Vermelho, disseram nesta segunda-feira responsáveis governamentais e do movimento, reforçando o controle sobre uma importante rota de navegação marítima. A ação amplia a presença do grupo em um ponto crítico para o comércio global de petróleo e ocorre em meio a uma escalada de hostilidades na região.
Tal como Ormuz, situado na entrada do golfo Pérsico, o estreito de Bab el-Mandeb, no lado oposto da Península Arábica, é um ponto de estrangulamento que liga o oceano Índico ao mar Vermelho, o que o torna uma via marítima essencial para o tráfego de carga com destino ao mar Mediterrâneo. O controle sobre essas ilhas permite aos Houthis projetar poder sobre uma das rotas mais movimentadas do planeta.
Arquipélago Hanish tomado sem resistência
Os Houthis instalaram-se nas ilhas Hanish, 160 quilômetros a norte de Bab el-Mandeb, depois de centenas de forças aliadas do governo se terem retirado do arquipélago, segundo dois responsáveis governamentais e um responsável Houthi. A retirada ocorreu sem confrontos significativos, indicando uma possível falta de capacidade defensiva das forças leais ao governo reconhecido internacionalmente.
O grupo, oficialmente conhecido como Ansar Allah, tomou o arquipélago depois de capturar a cidade portuária de Mokha, no continente, e a ilha de Perim, situada no estreito de Bab el-Mandeb. Essas conquistas consolidam uma cadeia de posições que se estende do litoral ao interior do país.
Em paralelo, lançou uma ofensiva mais para o interior, sobretudo na província de Taiz, palco de combates de longa data. A província tem sido um dos principais focos de violência desde o início da guerra civil, e os novos avanços podem reconfigurar o equilíbrio de forças local.
Ataques a alvos sauditas e retaliação
Os Houthis lançaram também esta segunda-feira uma nova vaga de ataques com mísseis e drones contra alvos militares sauditas. O grupo disse ter lançado dezenas de drones e mísseis contra o reino, que apoia o governo iemenita, levando a Defesa Civil saudita a emitir breves alertas nas cidades vizinhas de Khamis Mushait e Abha.
Durante a noite, a Defesa Civil saudita informou que um projétil dos Houthis caiu noutra zona junto à fronteira com o Iémen, ao longo do mar Vermelho, ferindo duas pessoas e danificando uma mesquita e vários outros edifícios. Riade não anunciou novos ataques contra os Houthis, mantendo uma postura de contenção até o momento.
Há mais de um mês que os Houthis têm vindo a atacar infraestruturas petrolíferas sauditas e navios no mar Vermelho, aumentando a pressão sobre os preços globais do petróleo e reforçando a margem de manobra do Irão na guerra com os Estados Unidos. A escalada coincide com um contexto regional tenso, no qual o estreito de Bab el-Mandeb se torna um ponto de disputa estratégica.
Guerra civil reacende após trégua
Os Houthis chegaram ao poder no fim de 2014, depois de tomarem de assalto Sana’a e ocuparem o palácio presidencial e posições militares estratégicas, forçando o governo do Iémen ao exílio. Desde então, o país mergulhou em uma guerra civil que já dura mais de uma década.
O grupo relançou as hostilidades na guerra civil iemenita em julho, após uma trégua da ONU que tinha mantido uma relativa calma desde 2022, ao permitir a aterragem de um avião iraniano em desafio ao controlo saudita do espaço aéreo do Iémen. Riade retaliou atacando o aeroporto, o que levou os Houthis a declarar, em julho, um bloqueio ao reino dirigido ao seu comércio de petróleo.
As forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente têm tentado reorganizar-se e ripostar, mas os ganhos dos Houthis parecem ter sido alcançados com pouca resistência. O governo, apoiado por uma série de milícias díspares, controla o sul e o leste do país, incluindo o importante porto meridional de Aden, mas enfrenta dificuldades para conter o avanço do grupo.
Crise humanitária se agrava
Cerca de 150 civis foram mortos nos combates desde 3 de setembro, segundo o Ministério dos Direitos Humanos do governo. Mais de 200 civis ficaram feridos, acrescentou. Os números refletem a intensidade dos confrontos recentes, que atingem áreas densamente povoadas.
Milhares de famílias abandonaram as suas casas em Taiz e nas províncias vizinhas só no último dia, disse Khanzad Shah, diretor interino da Islamic Relief, uma organização de caridade que opera na região. “Muitas não têm comida ou água suficientes, porque tiveram de fugir apenas com aquilo que conseguiam transportar. Em algumas zonas, há relatos de aldeias inteiras que ficaram vazias”, afirmou.
A ONU estima que mais de 80 000 pessoas foram deslocadas nas últimas duas semanas, incluindo mais de 2 000 que fugiram de barco para Djibuti. O êxodo em massa coloca pressão adicional sobre os países vizinhos e as agências humanitárias, que já operam com recursos limitados.
Os combates ameaçam reacender uma guerra que, durante mais de uma década, devastou o Iémen, causando a morte de mais de 150 000 pessoas e levando o país à beira da fome. A comunidade internacional observa com preocupação o risco de uma catástrofe humanitária ainda maior.
