Em Riad, na Arábia Saudita, especialistas em finanças digitais constataram que o aplicativo do banco tem perdido valor de destino. O termo embedded finance, que designa a integração de serviços financeiros em diferentes plataformas, não é novidade. Um dos autores mais reconhecidos na área, Brett King, antecipou a tendência em 2018, em livro cujo título significa algo como “Banco em todo lugar, nunca no banco”. A discussão ganhou força diante da evolução dos modelos de negócio e da mudança no comportamento do consumidor.
Hoje, a empresa que controla a experiência não precisa ser a que mantém a custódia dos recursos. Assim, quem melhor dialoga com o cliente tende a capturar mais valor do que quem guarda dinheiro. No Brasil, a Magie, banco no Whatsapp, foi pioneira nessa abordagem, e a iniciação de pagamentos se tornou possível em diversas plataformas e canais. Essa transformação indica que a interface bancária tradicional pode deixar de ser o principal ponto de contato.
Embedded finance redefine a experiência financeira
O conceito de embedded finance implica que serviços como pagamentos, crédito e seguros sejam ofertados dentro de jornadas não financeiras. Em vez de abrir um app bancário, o usuário realiza transações no contexto de uma compra, de uma conversa ou de uma plataforma de serviços. A tendência, apontada por Brett King em 2018, agora se materializa em casos concretos. No Brasil, a Magie demonstrou que é possível operar um banco inteiramente pelo WhatsApp. A iniciação de pagamentos, por sua vez, ampliou as possibilidades de integração em diferentes canais.
Essa mudança desloca a fonte de valor: a experiência do cliente passa a ser mais relevante do que a detenção dos recursos. Quem controla a interface e o relacionamento tende a capturar maior fatia do mercado. A constatação feita em Riad reforça que o modelo tradicional de banco centrado no aplicativo pode estar com os dias contados. A transição, contudo, não é uniforme e depende de fatores regulatórios e tecnológicos.
Open Finance brasileiro tem vantagem em consentimentos
Há, porém, uma vantagem: revogar consentimentos para uso de dados, um dos desafios dos protocolos globais para agentes, faz parte do Open Finance brasileiro desde o dia 1. Essa característica coloca o país em posição diferenciada em relação a outras jurisdições. A possibilidade de o usuário retirar autorizações a qualquer momento aumenta a confiança no sistema. Ainda assim, a existência do mecanismo não garante sua efetividade na prática.
O Brasil também conta com o gov.br, com 175 milhões de usuários, que funciona para comprovar quem somos no acesso a serviços. Ainda não é uma carteira digital que permita ao usuário apresentar credenciais verificáveis a diferentes instituições. E nisso é necessário evoluirmos, enquanto cada instituição financeira continua com processos próprios de identificação do cliente (KYC). A fragmentação dos processos de identidade digital é um obstáculo para a fluidez do embedded finance.
Falta medir o crédito nascido do compartilhamento
A Índia publica quanto crédito nasceu do compartilhamento. Nós, com mais consentimentos, não medimos esse indicador. Além disso, quando o modelo considera dezenas de variáveis, uma pessoa passa a ter maior dificuldade de entender e contestar uma decisão automática de inelegibilidade ao crédito. A ausência de métricas públicas impede avaliar o real impacto do Open Finance na inclusão financeira. A complexidade dos algoritmos também levanta questões sobre transparência e direito de revisão.
Essa lacuna de dados contrasta com o volume de consentimentos ativos no Brasil. Sem indicadores claros, fica difícil justificar investimentos e aprimorar políticas públicas. A experiência indiana mostra que é possível quantificar os resultados do compartilhamento de dados. A adoção de métricas semelhantes poderia orientar o desenvolvimento do ecossistema brasileiro.
Ineficiência na circulação de dados preocupa
Isso porque, no modelo atual, as instituições receptoras de dados precisam consultar periodicamente as transmissoras para descobrir se os dados do cliente foram atualizados. Como só sabem se houve mudança depois da consulta, em 61,5% das vezes recebem as mesmas informações que já tinham. Essa ineficiência na circulação é apenas parte do problema, também é preciso medir o resultado. O processo gera custos operacionais e atrasos na tomada de decisão. A falta de um mecanismo de notificação proativa compromete a agilidade esperada do sistema.
A alta taxa de consultas redundantes evidencia a necessidade de evolução técnica. Protocolos mais eficientes poderiam reduzir o tráfego desnecessário e melhorar a experiência das instituições. Ainda assim, a solução não se resume à tecnologia: é preciso alinhar incentivos e padrões entre os participantes. O tema deve permanecer na agenda regulatória e setorial.
Identidade digital e KYC fragmentados
O gov.br, com 175 milhões de usuários, é um ativo relevante para a identificação digital no Brasil. Contudo, ainda não funciona como uma carteira digital que permita ao usuário apresentar credenciais verificáveis a diferentes instituições. Enquanto isso, cada instituição financeira mantém processos próprios de KYC, o que gera retrabalho e fricção. A evolução para um modelo interoperável de identidade poderia destravar novas aplicações de embedded finance. A fonte não detalhou prazos ou iniciativas concretas para essa evolução.
A fragmentação do KYC também impacta a experiência do usuário, que precisa repetir verificações em cada relacionamento. A adoção de credenciais verificáveis baseadas no gov.br poderia simplificar esse fluxo. No entanto, questões de privacidade e segurança precisam ser endereçadas. O debate sobre identidade digital soberana ganha relevância nesse contexto.
O futuro do app bancário em xeque
As evidências apontam para um cenário em que o aplicativo do banco deixa de ser o centro da vida financeira. O embedded finance, aliado ao Open Finance, permite que serviços sejam acessados em múltiplos contextos. O Brasil tem vantagens regulatórias, como a revogação de consentimentos desde o dia 1, mas carece de métricas de resultado. A ineficiência na circulação de dados, com 61,5% de consultas redundantes, é um gargalo a ser superado. A evolução da identidade digital também é condição para o avanço do modelo.
O desafio, portanto, não é apenas tecnológico, mas de governança e medição. Enquanto a Índia publica indicadores de crédito originado do compartilhamento, o Brasil ainda não mede esse impacto. A complexidade dos modelos de decisão automática exige maior transparência para o cidadão. O futuro do setor financeiro dependerá da capacidade de integrar serviços de forma eficiente e confiável.
Fonte
- startups.com.br
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