Os Estados Unidos admitiram nesta terça-feira a possibilidade de um encontro com o Irão durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. A declaração foi feita pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em entrevista à NBC News. O anúncio surge em meio a dúvidas persistentes sobre o acordo de paz entre os dois países, após meses de negociações indiretas e comunicados contraditórios.
Washington aberto a diálogo na ONU
Rubio afirmou que, embora nada esteja agendado, os Estados Unidos estão “certamente abertos” a uma reunião com o Irão, especialmente se houver perspectivas de avanços. “Julgo que, neste momento, nada está agendado, mas estamos certamente abertos a algo desse tipo, sobretudo se houver perspetivas de que leve a algo positivo e, em última análise, permita alcançar o objetivo de tudo isto”, declarou. O chefe da diplomacia norte-americana reforçou que o objetivo central é impedir que o Irão obtenha armas nucleares.
“E esse objetivo é garantir que o Irão nunca terá uma arma nuclear. Simplesmente não pode”, acrescentou.
A fala de Rubio ocorre no mesmo dia em que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, partiu para Nova Iorque para participar da Assembleia Geral da ONU. Pezeshkian será o responsável iraniano de mais alto nível a pisar solo norte-americano desde o início da guerra, que começou no final de fevereiro com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.
Pezeshkian promete defender posições iranianas
Antes de deixar o Irão, Pezeshkian prometeu “defender firmemente” as posições do país nas instâncias internacionais. “Saímos com a cabeça erguida e isso é uma fonte de dignidade e orgulho para todos nós. Por isso, iremos defender com firmeza as nossas posições nas instâncias internacionais”, declarou, segundo imagens transmitidas pela televisão estatal. Está previsto que o presidente intervenha na reunião da ONU na quarta-feira.
O líder iraniano também afirmou que aproveitará a oportunidade para expor a situação do Irão à comunidade internacional. “Vamos aproveitar esta oportunidade da melhor forma possível para expor a situação do Irão à comunidade internacional. Diremos com firmeza aos nossos adversários que, apesar de todas as desigualdades e injustiças, o povo iraniano manteve-se firme”, disse.
Divergências sobre proposta de paz
Enquanto isso, relatos sobre uma possível proposta de paz geraram controvérsia. Segundo a agência Kyodo, a proposta visaria pôr termo de forma permanente à guerra entre os dois países. De acordo com essa reportagem, o Irão receberia com agrado uma retoma da diplomacia com os Estados Unidos, se Washington também der passos em direção à paz, segundo fontes anónimas.
No entanto, a agência semioficial Fars negou as informações poucas horas depois, classificando-as como pouco fiáveis e imprecisas e citando as suas próprias fontes iranianas. A Fars sustentou ainda que essas notícias têm como objetivo baixar o preço do petróleo. A divergência reflete o clima de incerteza que tem marcado as negociações.
Histórico de anúncios contraditórios
Em junho de 2025, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou um cessar-fogo com o Irão e Israel na sua plataforma Truth Social, antes de o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, ter negado publicamente a existência de qualquer acordo. No mesmo mês, Trump afirmou que as condições para pôr fim à guerra tinham sido “aprovadas por escrito”, antes de os média estatais iranianos publicarem aquilo que descreveu como “condições fabricadas”, em comunicados concorrentes que têm repetidamente dificultado o progresso diplomático.
Esses episódios ilustram a complexidade das relações entre Washington e Teerã, marcadas por desconfiança mútua e canais de comunicação indiretos. A possibilidade de um encontro direto na ONU, ainda que não confirmada, representa um potencial ponto de inflexão.
Estreito de Ormuz segue no centro das tensões
A reabertura do estratégico Estreito de Ormuz continua a ser um elemento central das negociações para pôr fim à guerra. O tráfego neste corredor marítimo vital, por onde circulava, antes da guerra, um quinto do petróleo e do GNL mundial, foi gravemente perturbado, com o Irão a abrir fogo sobre navios comerciais e a exigir autorizações para a passagem.
Em resposta, os Estados Unidos mantêm um contrabloqueio aos portos iranianos, ao mesmo tempo que aumentam a pressão económica sobre Teerão. O vice-presidente do Parlamento iraniano, Ali Nikzad, declarou nesta terça-feira que o país não recuará em relação ao estreito. “Não recuaremos no que toca ao estreito e, enquanto os Estados Unidos e outros países não interromperem as suas ações, enfrentarão gasolina e petróleo caros, bem como problemas energéticos continuados”, afirmou.
Diante desse cenário, a Assembleia Geral da ONU se apresenta como um palco potencial para retomar o diálogo, embora as posições permaneçam distantes. A comunidade internacional acompanha com atenção os próximos passos de Washington e Teerã.
