O Banco Central recebeu, nos últimos dias, um conjunto de indicadores que devem orientar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros. De um lado, a inflação medida pelo IPCA-15 de outubro veio abaixo das projeções do mercado. De outro, a atividade econômica mostrou recuperação mensal, mas perdeu ritmo em janelas mais longas, enquanto o mercado de trabalho segue resiliente, com desemprego em mínima histórica e renda em alta.
Os números, divulgados pelo IBGE e pelo próprio Banco Central, compõem um cenário misto para a autoridade monetária. A leitura é de que a economia desacelera gradualmente, mas o emprego e a renda ainda sustentam o consumo, o que pode pressionar a inflação de serviços. A seguir, os principais dados e o que eles sinalizam para a política monetária.
Inflação dá alívio, mas acumulado preocupa
O IPCA-15 de outubro trouxe um alívio para o BC. A prévia da inflação subiu 0,32%, abaixo dos 0,44% esperados pelo mercado e dos 0,70% registrados em setembro. No acumulado em 12 meses, porém, o índice acelerou de 4,47% para 4,62%.
A desaceleração mensal foi influenciada, principalmente, pela queda nos preços de alimentos e pela menor pressão de itens administrados. No entanto, o avanço no acumulado em 12 meses mantém a inflação acima do centro da meta, que é de 3%, e mais próxima do teto de 4,5%. Esse quadro exige cautela do Copom, que tem sinalizado que a convergência da inflação para a meta é condição para iniciar cortes de juros.
Para os analistas, o resultado mensal mais baixo reduz a probabilidade de uma alta imediata da Selic, mas não elimina a possibilidade de manutenção da taxa em patamar elevado por mais tempo. A transição para o próximo bloco de dados mostra que a atividade econômica também traz sinais contraditórios.
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Atividade surpreende no mês, mas perde fôlego
Na atividade, o IBC-Br de agosto também surpreendeu, desta vez para cima. O indicador do Banco Central, conhecido como uma prévia do PIB, avançou 0,3%, ante expectativa de alta de 0,12%.
O resultado mensal positivo foi puxado pelo setor de serviços e pela indústria, que tiveram desempenho melhor do que o esperado. Contudo, a recuperação mensal não eliminou a perda de ritmo observada em uma janela mais ampla. No trimestre encerrado em agosto, o índice caiu 0,6% em relação ao trimestre terminado em maio. Em 12 meses, acumulou crescimento de 1,6%.
Essa dicotomia entre o dado mensal e o trimestral reflete uma economia que ainda cresce, mas em velocidade menor. O Banco Central tem destacado que a desaceleração da atividade é parte do processo de desinflação, pois reduz a pressão sobre os preços. No entanto, o mercado de trabalho aquecido pode limitar esse efeito, como mostram os próximos números.
Emprego resiste e renda sobe
O mercado de trabalho oferece outro elemento para a avaliação do Copom. A taxa de desemprego ficou em 5,2% no trimestre encerrado em setembro, em linha com as expectativas e no menor nível para esse período da série histórica, iniciada em 2012. No trimestre terminado em junho, estava em 5,4%.
A queda do desemprego veio acompanhada de aumento na ocupação, especialmente no setor informal e no trabalho por conta própria. A renda também avançou na comparação anual. O rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.790, com alta de 3,6%, enquanto a massa de rendimentos cresceu 4,7%, para R$ 387,5 bilhões.
O aumento da massa de rendimentos é um fator que preocupa o Copom, pois indica maior capacidade de consumo das famílias. Em um cenário de inflação ainda elevada, esse dinamismo pode pressionar os preços de serviços, que são mais sensíveis à demanda interna. A próxima seção detalha o emprego formal, que também surpreendeu positivamente.
Caged mostra criação de vagas acima do esperado
No emprego formal, o resultado de agosto do Caged apontou a criação líquida de 165.827 vagas com carteira assinada, acima das 97.826 previstas pelo mercado. O setor de serviços respondeu pela maior parte do saldo, com 110.346 postos.
O desempenho do setor de serviços é particularmente relevante para a inflação, pois é nesse segmento que os preços costumam ser mais rígidos e reagem à demanda. A criação de vagas formais também indica que as empresas ainda estão contratando, o que pode sustentar a renda e o consumo nos próximos meses.
Diante desse quadro, o Copom terá que equilibrar a desaceleração da atividade com a resiliência do mercado de trabalho. A decisão sobre a taxa Selic será anunciada na próxima reunião do comitê, e os mercados aguardam sinais sobre os próximos passos da política monetária.
O que esperar da decisão do Copom
Os dados recentes reforçam a visão de que a economia brasileira está em um processo de desaceleração gradual, mas com núcleos ainda pressionados. A inflação corrente deu um alívio, mas o acumulado em 12 meses segue acima da meta. A atividade perdeu força no trimestre, mas o mercado de trabalho continua aquecido.
Nesse contexto, a expectativa majoritária é de manutenção da taxa Selic no patamar atual. No entanto, a comunicação do Copom será crucial para indicar se há espaço para cortes futuros ou se a autoridade monetária adotará uma postura mais conservadora diante da resiliência do emprego e da renda.
O comitê também deve observar a evolução das expectativas de inflação, que seguem acima da meta para os próximos anos. A decisão será anunciada após a reunião, e o mercado reagirá tanto ao número quanto ao tom do comunicado. A fonte não detalhou a data exata da próxima reunião.
