O debate da Band, tradicionalmente um dos momentos mais esperados da temporada eleitoral, terminou como um retrato do que a política brasileira tem vivido. Dessa forma, a ausência de Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema esvaziou o palco e abriu espaço para um embate marcado por ataques e baixo nível. Sobretudo, entre os presentes, Renan Santos, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) protagonizaram um encontro que ficará na memória — pela negativa.
Três desfalques e uma estratégia questionável
Cronologicamente, o debate da Band sofreu um desfalque de última hora: Romeu Zema (Novo) informou, em nota enviada às 12h01 por sua assessoria, que se juntaria a Lula e Flávio Bolsonaro, e não participaria do encontro. Consequentemente, a decisão mudou o rumo do evento e deixou o palco com apenas três candidatos.
No entanto, com 2%, no máximo, nas pesquisas eleitorais, essa talvez seja a única forma do ex-governador emparelhar com os dois adversários. Ademais, a estratégia, no mínimo, é discutível politicamente, mas pode ser melhor do que ser alvo dos adversários durante o confronto.
Ao optar por se ausentar, Zema evitou o risco de ter seu nome associado a embates diretos, mas também abdicou do espaço de exposição que um debate nacional proporciona. Contudo, a atitude levanta questionamentos sobre o papel dos candidatos menores em um cenário polarizado. Para o eleitorado, o resultado prático foi um encontro sem os principais nomes das pesquisas. Ou seja, é exatamente esse vácuo que abriu caminho para a falta de propostas consistentes.
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Ataques a Lula ocupam o palco
Na hora e meia em que Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury debateram (e bateram) sobre Lula, o ex-presidente se tornou o grande alvo dos discursos. Assim sendo, mesmo ausente, ele dominou as falas e as críticas. O programa, que poderia ser um palco de discussões e propostas, como o que ocorreu no civilizado encontro entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), em São Paulo, seguiu caminho oposto. Em vez de apresentar soluções, os candidatos preferiram atacar o adversário político.
A comparação com o debate paulista evidencia o que poderia ter sido e não foi. Enquanto Tarcísio e Haddad mantiveram um tom propositivo, o trio na Band optou pela agressividade. Por exemplo, os poucos projetos que eleitores e eleitoras receberam foram os relacionados à segurança pública. Ficou claro, portanto, que o objetivo principal não era convencer, mas desconstruir.
Dessa forma, o resultado é um cenário no qual o debate público perde espaço para a troca de acusações. Para quem esperava conhecer as propostas dos candidatos, a frustração foi grande. Em vez de um diálogo qualificado, o público viu repetição de bordões e ataques. A ausência dos principais líderes, somada ao comportamento dos presentes, contribuiu, principalmente, para a degenerescência do evento.
Propostas polêmicas de segurança
Assim sendo, no quesito propostas, a segurança pública dominou a pauta, com iniciativas que variam do discurso de linha dura a ideias inusitadas. Conheça as principais:
- Renan Santos: por exemplo, defendeu um “banho de sangue” contra bandidos, caso seja eleito.
- Ronaldo Caiado: por outro lado, propôs a construção de 40 prisões federais, a fim de reforçar o combate à criminalidade.
- Augusto Cury: ademais, apresentou a criação de mais uma polícia — que não deve ser confundida com milícia —, formada por civis e que reuniria 400 mil cidadãos e cidadãs.
Em resumo, as três propostas têm em comum o apelo popular e o viés punitivista, mas carecem de detalhamento. As falas, no entanto, parecem mais calcadas no impacto imediato do que em uma visão de longo prazo. A ênfase em temas de segurança, por outro lado, revela uma tentativa de conquistar o eleitorado que coloca a criminalidade como prioridade.
O problema é que, ao reduzir o debate a esse único tema, os candidatos deixaram de lado outras áreas essenciais, como saúde, educação e economia. Consequentemente, o eleitor interessado em conhecer um plano de governo mais completo saiu com pouca informação. Além disso, a ausência de um contraponto forte, como seria a participação de Lula, Flávio Bolsonaro e Zema, potencializou esse vazio. Mais uma vez, o que poderia ser um espaço de construção virou palco de disputas rasteiras.
Um final grotesco e simbólico
Para coroar o show grotesco, o encerramento do debate foi à altura do resto. Em seguida, nas considerações finais, Renan Santos foi alertado de que seu tempo estava encerrado e que não poderia mostrar papéis, como o que tinha e no qual estava escrito “ladrão”. A reação do candidato foi mandar com a mão um beijo para a apresentadora e moderadora. Isto é, o gesto, ao mesmo tempo irônico e desrespeitoso, sintetizou o tom do evento.
O episódio ocorreu após 5 minutos e 37 segundos de ataques repetidos, que poderiam ser ditos no espaço que Flávio Bolsonaro teria se também não fugisse do debate. Ou seja, a frase “fugisse” ganha contornos simbólicos: os que estavam ali para discutir acabaram repetindo o que se via de fora. Dessa forma, o resultado foi um domingo para ser esquecido na política brasileira.
O que fica do debate
Em resumo, passado o debate, fica a sensação de que o eleitor perdeu uma oportunidade de conhecer melhor quem quer governar. As promessas de campanha continuam, mas o nível do discurso deixou muito a desejar. Além disso, a política, mais uma vez, mostrou sua face menos nobre.
Fonte
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