Ford e a crise imobiliária de luxo: o fim dos carros sem graça
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Em uma tarde recente, por exemplo, Matt Simpson observava uma fila de SUVs robustos para off-road, picapes e carros esportivos de alta potência avançando em alta velocidade por uma pista da Nascar, no centro de Michigan. Ou seja, a cena resume a transformação pela qual a Ford passou: a montadora deixou de fabricar sedãs familiares, hatches baratos e minivans sem graça. No lugar, aposta em veículos icônicos, personalização e alto valor agregado.

Uma linha de produtos apaixonante

Por exemplo, Simpson lidera uma equipe que desenvolve pacotes para que proprietários de SUVs Bronco e picapes F-150 possam personalizar seus veículos com pinturas exclusivas e motores de alta potência. Ademais, a Ford não fabrica mais nenhum modelo de sedã familiar tradicional, hatchback barato ou minivan sem graça. “Esta é a linha de produtos mais apaixonante que a Ford já teve”, disse Simpson.

Assim sendo, a mudança não passou despercebida entre concessionários. Por exemplo, Shane Collins disse: “É definitivamente uma mudança completa em relação a tudo em que a maioria dos concessionários que conheço acredita, que é: quanto mais produtos você tem, mais produtos consegue vender.” Ou seja, a declaração mostra o tamanho do rompimento com a lógica tradicional do setor. Ademais, a Ford, afinal, ajudou a desenvolver a moderna linha de montagem e ainda fabrica a maioria de seus carros nos EUA, mas agora foca uma estratégia de menos volume e mais margem.

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O fim dos carros comuns

Ao longo de sua história, a linha de produtos da Ford passou a incluir carros compactos, cupês, sedãs grandes, peruas, picapes e SUVs como o Bronco. Em 2018, porém, a empresa tomou a decisão de eliminar completamente os carros de sua linha, com exceção do Mustang.

Escape: o último acessível

O último representante da categoria de veículos acessíveis foi o Escape, um SUV crossover que chegou a partir de cerca de US$ 28 mil, mas deixou de ser produzido em 2025. Ademais, em julho, restavam apenas alguns milhares de unidades não vendidas do Escape nos pátios das concessionárias. Dessa forma, a antiga fábrica do modelo agora está sendo ocupada por uma picape totalmente elétrica de US$ 30 mil da Ford.

Por outro lado, Andrew Frick disse: “Se eu tivesse que nos dar uma nota pelos anos anteriores, no segmento de veículos acessíveis, éramos medianos nas duas coisas e, portanto, não era uma proposta vencedora sustentável.” Isto é, a avaliação interna explica por que a empresa preferiu recuar desse mercado. A transição, porém, tem custos: as vendas gerais de carros novos encolheram, com cerca de um milhão de compradores deixando de comprar veículos, e os preços médios giram em torno de US$ 50 mil.

Preço mais alto, menos compradores

Portanto, os números mostram um deslocamento claro. Por exemplo, uma década atrás, um veículo Ford podia custar menos de US$ 15 mil, e havia várias opções na faixa de US$ 20 mil; agora, o Ford novo mais barato começa pouco abaixo de US$ 30 mil. Consequentemente, essa escalada de preços afasta uma fatia de consumidores, mas a montadora parece disposta a aceitar o encolhimento do mercado em troca de um posicionamento mais premium.

No entanto, a estratégia contrasta com a filosofia do fundador. Por exemplo, Henry Ford escreveu em 1927: “Defendo que é melhor vender um grande número de carros com uma margem de lucro razoavelmente pequena do que vender poucos carros com uma margem de lucro elevada.” Assim sendo, a declaração histórica evidencia a ruptura com o modelo que tornou a empresa famosa. Por outro lado, no lugar do volume, a Ford atual persegue veículos com maior apelo emocional e lucro por unidade.

A aposta em veículos icônicos

Além disso, Farley quer transformar a Ford na “Porsche dos veículos off-road”. Ele também quer tirar a empresa do segmento de carros comuns para colocá-la no negócio de “veículos icônicos”. Ou seja, em suas palavras: “Nós atuamos apenas onde temos uma vantagem competitiva real, ou podemos construir uma, e somos implacáveis sobre onde colocamos nosso dinheiro. Cada dólar precisa gerar retornos duradouros e impulsionar um crescimento rentável.”

Contudo, a aposta é ousada, na avaliação de Dan Levy, analista do setor automotivo do Barclays: “É uma aposta muito grande da parte deles.” Ademais, a empresa também projeta disputar o mercado de elétricos com os principais concorrentes: “Nossa expectativa é competir não com alguns dos, sabe, fabricantes medianos de veículos elétricos, mas com as Teslas do mundo.” O movimento, portanto, não se limita a abandonar carros sem graça, mas a reposicionar toda a marca.

Personalização como diferencial

Dessa forma, para sustentar a nova linha, a Ford mudou o processo de desenvolvimento. Por exemplo, historicamente, a empresa desenvolvia um veículo e só depois pensava nos acessórios para ele; agora, os designers da companhia participam desde o início para descobrir maneiras de oferecer opções de personalização. Consequentemente, essa integração antecipa a demanda por exclusividade e prepara o terreno para margens maiores em modelos como Bronco e F-150.

Portanto, a estratégia representa uma guinada e tanto para uma montadora que ajudou a popularizar o automóvel. Por outro lado, se o caminho dará certo, dependerá da aceitação de um mercado cada vez menor, porém mais disposto a pagar caro por veículos com identidade própria. Em resumo, por enquanto, a Ford aposta todas as fichas em uma linha enxuta, apaixonante e lucrativa.

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