O Salão do Automóvel de Paris abriu suas portas nesta semana com uma presença massiva de fabricantes chineses, que ocuparam cerca de um terço dos estandes do evento. Ao todo, 20 marcas da China montaram exposições, número que só fica atrás do total de marcas europeias e representa um salto em relação às nove participantes da edição anterior, realizada há dois anos. A feira, tradicional vitrine da indústria automotiva europeia, reflete a rápida expansão das montadoras chinesas no continente.
Chineses avançam com tecnologia e ousadia
Entre os destaques, a BYD, marca de veículos elétricos mais vendida do mundo, apresentou um SUV destinado ao mercado europeu que consegue recarregar boa parte da bateria em cinco minutos. Já a XPeng exibiu um teste de direção autônoma realizado nos arredores do Arco do Triunfo, monumento do século 19 encomendado por Napoleão Bonaparte e localizado na avenida Champs-Élysées. O veículo, um SUV equipado com tecnologia supervisionada por um motorista, deu conta do desafio, afirmou o presidente-executivo da empresa, He Xiaopeng, em um evento no domingo.
“Meu Deus, é difícil”, disse ele ao comentar sobre a caótica rotatória que contorna o monumento. A demonstração buscou provar a capacidade dos sistemas chineses em ambientes urbanos complexos.
Vídeo: YouTube | Fonte: investnews.com.br
Estratégia vai além das vendas
As montadoras realizaram coletivas de imprensa em sequência, às vezes simultaneamente, enquanto executivos chineses destacavam seus planos de ampliar a produção na Europa. “Elas buscam não apenas vender aqui, mas também ser vistas como boas cidadãs”, disse Adam Bernard, consultor automotivo baseado nos Estados Unidos. A estratégia inclui parcerias locais e investimentos em fábricas, numa tentativa de suavizar resistências políticas e regulatórias. Três marcas americanas estavam representadas no salão: Tesla, Ford Motor e Lucid Group, um contraste com a enxurrada de novidades asiáticas.
Participação de mercado cresce e preocupa
As montadoras chinesas estão acelerando suas vendas em toda a Europa ao oferecer veículos repletos de recursos sofisticados a preços competitivos. Elas responderam por 11,3% de todas as vendas no acumulado do ano até agosto, ante 7,1% no mesmo período do ano passado. Essa mudança está entre os motivos por trás de uma onda de cortes de empregos nas montadoras europeias, que tem alarmado líderes políticos e acelerado as negociações entre Bruxelas e Pequim. O crescimento rápido acendeu alertas sobre a competitividade da indústria local.
UE negocia cotas para conter importações
Na última sexta-feira (9), a União Europeia e a China chegaram a um acordo que, segundo o bloco europeu, poderia reduzir pela metade suas importações de veículos híbridos chineses. A UE imporá uma cota anual de 350 mil unidades no primeiro ano, informaram autoridades europeias na segunda-feira, acrescentando que o limite poderá aumentar 6% em cada um dos três anos seguintes. “O déficit comercial é um desafio gigantesco para a UE”, disse Maroš Šefčovič, comissário de Comércio da União Europeia, na semana passada.
As medidas visam proteger a indústria automotiva do bloco sem romper totalmente o comércio com a China.
Europa aposta na nostalgia para competir
O presidente francês, Emmanuel Macron, buscou pessoalmente dar um toque europeu ao evento. Macron admirou um protótipo totalmente elétrico do Citroën 2CV, modelo clássico da fabricante francesa que marcou presença nas ruas europeias no período pós-guerra. Assim como outras montadoras tradicionais da Europa, a Stellantis, dona da Citroën, está recorrendo à sua herança do século 20 em resposta à onda de empresas chinesas criadas no século 21. A aposta em ícones do passado tenta reconquistar a atenção do consumidor europeu.
Chineses miram também o luxo
Até agora, marcas controladas por cinco empresas concentram a maior parte das importações chinesas de veículos para a Europa: BYD, Chery Automobile, SAIC Motor, Geely Automobile e Leapmotor, que está expandindo suas operações por meio de uma joint venture com a Stellantis, dona da Jeep. “Temos grandes ambições”, disse Klaus Zyciora, principal conselheiro global da Changan. As montadoras chinesas também estão tentando conquistar espaço no mercado de luxo europeu, tradicionalmente protegido da concorrência externa.
A marca Aito, fabricada pelo Seres Group e que utiliza o slogan “Inteligência redefinindo o luxo”, anunciou que chegará à Europa no segundo semestre de 2027. “As empresas chinesas são conhecidas pela eficiência de custos. Convencer os clientes de que também somos capazes de oferecer luxo levará tempo. Mas chegaremos lá”, disse Clifford Kang, integrante do conselho do Seres.
Fonte
- investnews.com.br
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