O Federal Reserve (Fed) se aproxima de mais uma decisão sobre a taxa de juros, e o relatório do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês), previsto para sexta-feira (11), deve ser decisivo para determinar se os dirigentes elevarão os juros na próxima semana. A reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) está marcada para os dias 15 e 16 de setembro, e os investidores atribuem atualmente uma probabilidade de cerca de 60% de alta dos juros, segundo os contratos futuros.
Autoridades têm ressaltado que precisam de sinais de que a inflação subjacente está no caminho para atingir a meta de 2% do Fed.
Enquanto isso, preocupações com uma inflação persistente e com o aumento da dívida do governo já elevaram os custos de financiamento para as famílias americanas. O cenário coloca pressão sobre o banco central para agir, mas a decisão não é unânime entre os membros do FOMC.
CPI de agosto é o termômetro decisivo
O CPI de agosto deve mostrar uma alta de 0,4% da inflação cheia e de 0,2% do núcleo da inflação em relação ao mês anterior, segundo a mediana das projeções de economistas consultados pela Bloomberg. O núcleo exclui itens voláteis como alimentos e energia, sendo um indicador mais estável da tendência de preços. Se os números vierem em linha com as expectativas, podem reforçar o argumento para uma pausa; se surpreenderem para cima, a probabilidade de alta aumenta.
Autoridades do Fed vêm emitindo sinais divergentes antes da divulgação dos dados. Alguns afirmam que chegou a hora de elevar os juros, enquanto outros ainda esperam que as pressões sobre os preços estejam diminuindo. Essa divisão reflete a incerteza sobre a trajetória da inflação e o impacto defasado das altas anteriores.
Autoridades divididas sobre necessidade de alta
Muitas autoridades do Fed acreditam que o impacto mais forte dessas medidas já passou, embora estejam atentas a sinais de que as pressões sobre os preços estejam se tornando mais disseminadas — algo que poderia aumentar a necessidade de novas altas de juros. A inflação de serviços, por exemplo, tem mostrado resiliência, o que preocupa alguns formuladores de política monetária.
A divergência interna não é novidade, mas ganha contornos mais nítidos quando a economia dá sinais mistos. Enquanto o mercado de trabalho permanece apertado, com desemprego baixo, a atividade em setores sensíveis a juros, como o imobiliário, já desacelerou de forma acentuada.
Juros altos pesam pouco em tecnologia
Os juros elevados estão pesando sobre o mercado imobiliário, mas têm feito pouco para conter o forte crescimento da demanda por data centers e componentes essenciais para essas estruturas. Os anúncios de investimentos em capital, ou capex, em data centers continuam crescendo rapidamente e podem chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030, segundo o JPMorgan Chase & Co.
Em 2022, as vendas de imóveis despencaram quando o Fed elevou os juros. Desde então, elas permanecem em níveis baixos. No entanto, o setor de tecnologia, impulsionado pela inteligência artificial, segue investindo pesadamente, o que reduz a eficácia da política monetária em desacelerar a economia como um todo.
Economia menos sensível aos juros
“A economia está muito menos sensível aos juros do que esteve em ciclos anteriores”, disse Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays. Uma análise do Barclays mostrou que as grandes empresas de tecnologia responsáveis por serviços de nuvem, conhecidas como hyperscalers, estão destinando mais de 90% do fluxo de caixa operacional à infraestrutura de inteligência artificial.
“É pouco provável que elas reconsiderem seus planos de gastos porque o custo de financiamento de um data center aumentou de 50 a 75 pontos-base”, escreveram Rajadhyaksha e Marc Giannoni, economista-chefe para os EUA, em uma nota. Isso significa que o canal tradicional de transmissão da política monetária — o custo do crédito para investimento — está enfraquecido.
Consumidor pode ser o alvo
Com vários dos fatores recentes de inflação mostrando potencialmente pouca sensibilidade aos juros mais altos, autoridades do Fed podem precisar exercer mais pressão sobre um componente da economia que é afetado de forma mais imediata pelo aumento dos custos de financiamento: o consumidor. Em um momento em que a renda real está estável, uma alta dos juros poderia “pressionar para baixo as compras discricionárias, desacelerando marginalmente o crescimento”, disse Christopher Hodge, economista-chefe para os EUA da Natixis.
O Fed tem, vale lembrar, o mandato de apoiar o mercado de trabalho e controlar a inflação. Com o desemprego ainda baixo, há pressão para que as autoridades atuem sobre a inflação, disse Hodge, mas tomar a decisão correta é uma tarefa difícil.
Dados de inflação decidirão o rumo
“A responsabilidade está sobre os dados de inflação para convencer”, afirmou Hodge. “Qualquer resultado que não seja outro sinal claro de progresso será suficiente para provocar uma alta dos juros na próxima semana.” A frase resume o dilema do Fed: agir cedo demais pode sufocar o crescimento, mas esperar demais pode deixar a inflação se enraizar.
O relatório de sexta-feira será, portanto, o último grande indicador antes da decisão. Com a economia mostrando resiliência em áreas não sensíveis a juros e fraqueza em setores tradicionais, o banco central caminha sobre uma linha tênue, e os mercados estarão atentos a cada sinal.
Fonte
- investnews.com.br
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