Em um ano já desafiador para as usinas, marcado por preços e margens comprimidas do açúcar, a rápida expansão do etanol de milho acende um novo alerta no setor sucroenergético. O biocombustível, que surge como possível fonte de fôlego, torna-se também um fator de preocupação, com potencial para reordenar a dinâmica do mercado interno e das exportações brasileiras.
Cenário de cautela para o setor sucroenergético
Para o início da próxima safra, que começa em abril, a expectativa ainda é de preços mais firmes para o biocombustível, o que pode trazer algum alívio no curto prazo. No entanto, o cenário estrutural inspira cautela.
A avaliação é de que uma expansão excessiva do etanol de milho pode criar distorções no mercado, afetando diretamente a competitividade do etanol de cana.
Impacto na produção de açúcar
Segundo o professor do Insper, Marcos Jank, esse movimento pode forçar o setor a direcionar mais cana para a produção de açúcar. Essa possibilidade ganha contornos preocupantes quando se considera a natureza do mercado açucareiro brasileiro.
O país já responde por cerca de metade do mercado mundial de açúcar, um produto essencialmente voltado à exportação. O consumo interno não vai absorver volumes adicionais, uma vez que o brasileiro já consome muito açúcar.
Portanto, qualquer aumento na produção precisará encontrar espaço no competitivo mercado internacional.
Reordenamento nas exportações de açúcar
O aumento da produção de milho pode provocar um reordenamento relevante no setor de etanol e também na dinâmica das exportações brasileiras de açúcar, conforme aponta o professor Marcos Jank.
Com a cana sendo potencialmente direcionada para fabricar mais açúcar, a oferta global do produto pode aumentar, pressionando ainda mais os preços em um mercado já sensível.
Rentabilidade e vulnerabilidade do etanol de milho
Além disso, Jank chama atenção para a sustentabilidade da rentabilidade das plantas de etanol de milho no médio e longo prazo, à medida que novas unidades entram em operação.
A rentabilidade do setor é sensível a fatores externos, como o preço da gasolina. Uma eventual queda no preço do combustível fóssil pode ‘destruir’ a comercialização do etanol, segundo análises do setor.
Essa vulnerabilidade adiciona uma camada de incerteza ao crescimento acelerado do segmento de milho, que precisa ser observado com atenção pelos agentes do mercado.
Projeções da expansão do etanol de milho
A dimensão da expansão do etanol de milho fica clara ao observar as projeções. Para a consultoria StoneX, a produção deve fechar perto de 9,6 milhões de metros cúbicos.
A perspectiva para 2026 é de um volume em torno de 11,5 a 12 milhões de metros cúbicos, o que representa um aumento de 20% a 25%.
Participação no mercado de biocombustíveis
Atualmente, o mercado crescente do etanol de milho representa 25% da produção anual do biocombustível brasileiro. Esse percentual deve subir significativamente na próxima década.
Algumas estimativas mais otimistas apontam que esse número pode chegar a 50% nos próximos 10 anos. Segundo a StoneX, a projeção é um pouco mais conservadora, indicando que a participação do etanol de milho deve ser de 40% em 2035.
Esses dados mostram uma trajetória de crescimento consistente, que consolidará o milho como uma fonte energética importante na matriz de biocombustíveis do país.
Espaço para mais açúcar no mercado?
Diante desse cenário, a pergunta central para o setor sucroenergético é se há espaço para mais açúcar. Com o etanol de cana possivelmente perdendo competitividade frente ao de milho, a pressão para aumentar a produção do adoçante se intensifica.
No entanto, o destino desse produto adicional é um desafio complexo. Como o consumo interno está saturado, o Brasil dependerá ainda mais das exportações para escoar sua produção.
Desafios no mercado internacional
O país, que já é um gigante no mercado global, precisará navegar em um ambiente internacional competitivo e com preços voláteis. O reordenamento provocado pelo etanol de milho, portanto, não se limita ao mercado doméstico de combustíveis.
Ele tem o potencial de alterar profundamente a estratégia e a rentabilidade de todo o complexo sucroenergético nacional, exigindo adaptação e planejamento de longo prazo das usinas para enfrentar um ano que se mostra cada vez mais desafiador.
