Na terça-feira (3), durante as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, eleitores de dez estados foram às urnas e, em 40 dos 41 plebiscitos locais realizados, rejeitaram projetos de data centers propostos por grandes empresas de tecnologia. O resultado sinaliza uma mudança na percepção pública sobre a infraestrutura necessária para a inteligência artificial, com impactos imediatos nos mercados financeiros globais.
Os plebiscitos, em sua maioria originados de petições populares, refletem a insatisfação de comunidades locais com os custos e impactos dessas instalações. A rejeição em massa surpreendeu analistas e pressionou as ações do setor de tecnologia, que já operavam em queda nesta sexta-feira (6).
Rejeição popular em números expressivos
Dos 41 plebiscitos realizados na última terça-feira, 40 terminaram com a rejeição aos projetos das big techs. Esse número faz parte de um total de 50 plebiscitos programados para 2026 nos estados americanos, sendo que 41 já ocorreram e três estão agendados para dezembro próximo. Até o momento, dos 47 já realizados, apenas um resultado foi favorável ao desenvolvimento de data centers.
A maior parte dessas votações propõe restrições ou proibições para data centers com demanda igual ou maior que 25 megawatts, o que caracteriza centros de hiperescala. Essa exigência energética elevada é um dos principais pontos de atrito com as comunidades locais.
Pesquisa da emissora de TV NBC News com eleitores na boca da urna apontou que 57% acreditam que a IA fará mais mal que bem à sociedade. Além disso, 76% eram contrários à construção de data centers em suas comunidades. Esses números ajudam a explicar a onda de rejeição observada nos plebiscitos.
Impactos locais: energia e água em foco
Um dos problemas centrais dessas infraestruturas é o alto consumo de energia e água, usados para processar os dados das IAs. Esse consumo tem elevado o valor desses insumos onde os centros são instalados, gerando preocupação entre moradores e autoridades locais.
Em comunidades que já enfrentam escassez hídrica ou redes elétricas sobrecarregadas, a chegada de um data center de hiperescala pode representar um fardo adicional. Os plebiscitos, portanto, funcionam como um mecanismo de defesa popular contra o que muitos veem como uma externalidade negativa das big techs.
A transição para uma economia digital mais intensiva em dados esbarra, assim, em limites físicos e sociais que as empresas de tecnologia não haviam antecipado plenamente.
Mercado reage com queda nas bolsas
Em reação a essa nova realidade política, as bolsas de valores em todo o mundo operam em queda nesta sexta-feira (6). Entre os motivos está a baixa dos títulos das gigantes da tecnologia. As ações da Nasdaq Composite, nos EUA, registram uma baixa de 5,5% no dia.
Investidores interpretam a rejeição popular como um risco regulatório e operacional para empresas que dependem de data centers para expandir seus serviços de IA. A incerteza sobre a viabilidade de novos projetos pode limitar o crescimento futuro do setor.
A queda não se restringe aos Estados Unidos: bolsas na Europa e na Ásia também refletem o pessimismo com o setor de tecnologia, em um movimento de aversão ao risco que se espalha globalmente.
Voto influenciado por IA e data centers
O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abrão, destacou que 56% dos eleitores consideraram a IA e os data centers fatores importantes ou decisivos na hora do voto. Esse dado evidencia que o tema deixou de ser periférico e passou a influenciar diretamente escolhas eleitorais.
A mobilização popular em torno dos plebiscitos demonstra que a população está atenta aos impactos locais da expansão tecnológica. As petições populares, que deram origem à maioria das votações, mostram um engajamento cívico raro em questões de infraestrutura.
Esse cenário pressiona políticos e empresas a repensarem estratégias de implantação de data centers, buscando maior diálogo com as comunidades afetadas.
Resposta política: autorregulação em debate
Diante do mal-estar da população com o setor, Trump anunciou, em setembro deste ano, uma agenda de “autorregulação”, em que as próprias big techs definiriam mecanismos de segurança e controle que teriam que seguir. A proposta, no entanto, não acalmou os críticos, que veem na medida uma forma de evitar regras mais rígidas.
A autorregulação contrasta com a pressão popular por restrições locais, criando um impasse entre interesses corporativos e demandas comunitárias. Enquanto isso, os plebiscitos continuam a ser a principal ferramenta de resistência local.
O desfecho dessas disputas pode definir o ritmo da expansão da IA nos Estados Unidos e, por extensão, no mundo.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- Ballotpedia (ballotpedia.org)
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Especial Jorge Vercillo (tvbrasil.ebc.com.br)
