Derrota de Trump pode frear intervenções na América Latina
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A derrota do governo de Donald Trump nas eleições legislativas desta terça-feira (3) nos Estados Unidos pode representar um freio na política de intervenções na América Latina, que marcou o segundo mandato do republicano. A avaliação é de analistas ouvidos pela Agência Brasil, que apontam para uma possível mudança de postura da Casa Branca em relação à região, especialmente no que diz respeito ao Brasil.

A política externa de Trump vem defendendo a “proeminência” de Washington na região, incluindo a defesa da “dominação” dos EUA no continente com medidas para bloquear a influência econômica da China nos países latino-americanos e caribenhos. Essa postura, no entanto, pode ser revista diante do novo cenário político interno nos EUA, com o Congresso agora sob maioria democrata.

Intervenções marcaram o segundo mandato de Trump

Entre as ações mais controversas do governo Trump na América Latina está a invasão da Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026. O episódio foi seguido por um acordo petroleiro com Caracas, que reservou 21% do petróleo do país para uma empresa ligada ao Pentágono, dos EUA, com parte do óleo a ser vendido pelo preço de custo.

Outra iniciativa que marca a política de Trump neste segundo mandato é o Escudo das Américas, criado sob a justificativa de combater os cartéis de drogas, mas que tem sido apontado como instrumento de interferência dos EUA na região. A medida gerou críticas de governos latino-americanos, que veem na ação uma tentativa de ampliar a presença militar americana no continente.

Essas ações, somadas a outras medidas de pressão econômica, consolidaram uma imagem de Washington como potência intervencionista na região. No entanto, a derrota eleitoral pode obrigar o governo Trump a recalibrar sua estratégia, priorizando acordos bilaterais em vez de confrontos.

Tarifaço contra o Brasil foi visto como interferência

Entre as medidas da Casa Branca que geraram atrito com o Brasil está o tarifaço aplicado pelo governo Donald Trump contra o país. A medida vem sendo interpretada pelo governo brasileiro como uma interferência política que mirou as eleições de outubro a favor do adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O tarifaço afetou setores estratégicos da economia brasileira, como o agronegócio e a indústria, e elevou a tensão diplomática entre os dois países. Para o governo brasileiro, a ação de Trump teve motivação eleitoral, buscando enfraquecer a candidatura de Lula e favorecer a oposição.

Com a derrota republicana, no entanto, a pressão sobre o Brasil pode diminuir. O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires avalia que a derrota eleitoral desta terça-feira (3) deve funcionar como um incentivo para o governo Trump chegar a um acordo com o Brasil.

Acordo com o Brasil pode ser caminho natural

“Se eles aprenderam algo com a derrota, é que a economia precisa melhorar. Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido”, disse Juliano Machado Pires à Agência Brasil. A fala reflete a visão de que o governo Trump, agora pressionado por um Congresso democrata, terá menos espaço para aventuras externas e mais necessidade de resultados econômicos internos.

Juliano acrescentou ainda que o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, responsável pela política externa do governo Trump, deve ficar mais ocupado dando explicações ao Congresso agora com maioria democrata. Isso pode reduzir a capacidade de Rubio de articular ações intervencionistas na América Latina, abrindo espaço para uma diplomacia mais pragmática.

“Eles precisam de uma série de acordos que eles têm interesse no Brasil, em várias áreas, como nas tarifas, terras raras e data centers. Se eles forem racionais, é o momento de fazer as pazes com o governo brasileiro”, disse o analista. A declaração sugere que interesses econômicos mútuos podem prevalecer sobre a retórica de confronto.

Risco de factoides no exterior permanece

Apesar do cenário mais favorável ao diálogo, Juliano Machado não descarta a possibilidade de o governo Trump buscar criar “factóides” no exterior para desviar a atenção de problemas internos. Essa tática, comum em governos sob pressão, poderia envolver ações simbólicas ou declarações polêmicas relacionadas à América Latina, sem necessariamente configurar intervenções diretas.

O analista pondera que, mesmo com a derrota, Trump mantém uma base fiel e pode tentar mobilizá-la com gestos de força no cenário internacional. No entanto, a viabilidade dessas ações seria limitada pela necessidade de aprovação do Congresso para gastos militares e pela prioridade que a economia deve assumir na agenda republicana.

Para os países latino-americanos, o momento é de cautela. A possibilidade de um recuo nas intervenções é real, mas não elimina o risco de novas tensões pontuais. O desenrolar das negociações entre Washington e Brasília será um termômetro importante para medir a disposição do governo Trump em mudar sua postura na região.

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