Credores viram sócios na Raízen e encerram recuperação
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A Raízen concluiu, nesta sexta-feira, 30, a maior recuperação extrajudicial do Brasil, resolvendo um passivo de R$ 65 bilhões e transformando credores em sócios com 80% de participação. O fechamento da operação ocorre menos de seis meses após o pedido feito à Justiça, no dia 11 de março, e marca uma virada na estrutura societária da companhia fundada por Rubens Ometto em 2011.

Com a confirmação do acordo, a Shell, agora maior acionista individual, terá entre 13% e 15% de participação e integralizará R$ 3,5 bilhões. A empresa será dividida em Raízen Energia e Raízen Combustíveis, com a cisão efetiva em dezembro e operações iniciando em janeiro de 2027. Essa reorganização encerra um ciclo de endividamento e abre espaço para um novo modelo de governança, sem bloco de controle.

Credores assumem controle e Shell lidera capitalização

Do total da dívida da companhia, 45%, ou cerca de R$ 30 bilhões, vinham justamente do conjunto de credores que agora integra a companhia. Os demais 55% — os R$ 35 bilhões restantes — já foram perfilados, com data de vencimento de até oito anos. Com as novas capitalizações e a transformação da dívida em equity, o valor de mercado da empresa deve atingir outro patamar, ainda a ser estabelecido.

Não haverá bloco de controle nem acordo de acionistas. Na prática, a empresa se aproxima de uma corporation. Antes do processo, a Shell e a Cosan tinham 44% de participação cada, e 12% das ações estavam no mercado. Com a confirmação do acordo, essa correlação muda completamente, diluindo a presença dos antigos controladores e pulverizando o capital entre credores convertidos e novos investidores.

Ometto deixa liderança, mas pode voltar ao conselho

Rubens Ometto, fundador, deixará a liderança, mantendo menos de 5% de participação, mas poderá integralizar R$ 500 milhões para uma cadeira no conselho. A saída do executivo do comando direto representa uma ruptura com a gestão que marcou a trajetória da Raízen desde sua criação. A fonte não detalhou se Ometto já definiu sua decisão sobre o aporte.

A transição de poder ocorre em meio à reestruturação societária e à divisão dos negócios. A nova configuração acionária, sem controlador definido, tende a profissionalizar ainda mais a gestão e a reduzir a influência individual sobre as decisões estratégicas.

Novos CEOs assumem as duas empresas

O novo CEO da Raízen Combustíveis será Lorival Luz, e Geovane Consul liderará a Raízen Energia. Lorival Luz é o atual CFO da Raízen, chegou em dezembro na companhia e liderou o processo de recuperação extrajudicial. Já Geovane Consul é o atual vice-presidente de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen.

No acordo aprovado, a Raízen vai se transformar em Raízen Energia, que vai ter, entre os ativos, tudo que estiver ligado à produção; e a Raízen Combustíveis, diretamente ligada à distribuição e responsável pela marca de postos Shell. A separação operacional visa dar foco e eficiência a cada segmento, com lideranças dedicadas.

Acordo tributário e reforço de caixa

A empresa pagou R$ 2,5 bilhões à União em um acordo tributário. A perspectiva é de, em março, ter R$ 18,1 bilhões em caixa, a partir da nova recomposição. O valor de mercado da Raízen é de R$ 421,7 milhões. Ainda nesta sexta-feira, 30, a Raízen realizou pagamento de R$ 2,5 bilhões à União, referente a um mega acordo tributário, de uma dívida original de R$ 22,5 bilhões.

Com o redesenho da empresa, o plano é de chegar em março com um caixa de R$ 18,1 bilhões. Esse montante, se confirmado, dará fôlego financeiro para as operações das duas novas companhias e para eventuais investimentos em expansão ou redução de passivos remanescentes.

Ações disparam com notícias do acordo

Com a informação do acordo tributário e a perspectiva de um final feliz para o processo de recuperação extrajudicial, as ações da Raízen operaram em alta durante todo o pregão. O papel fechou o dia com valorização de 10,7%, a R$ 0,31. No acumulado de 2026, as ações RAIZ4 registram queda de 61,2% na B3. Em 12 meses, a desvalorização é maior, de 67%.

Apesar do salto do dia, o desempenho anual ainda reflete a crise que levou a companhia à recuperação extrajudicial. A reação positiva do mercado, contudo, sinaliza otimismo com a nova estrutura de capital e com a resolução do passivo bilionário.

Próximos passos da reestruturação

A cisão efetiva da Raízen em duas empresas está prevista para dezembro, com operações independentes a partir de janeiro de 2027. Até lá, a companhia deve concluir a integralização de capital da Shell e de outros credores convertidos, além de definir os detalhes da governança sem bloco de controle.

O sucesso da maior recuperação extrajudicial do Brasil pode servir de referência para outras empresas em situação semelhante, mostrando que a conversão de dívida em participação acionária é um caminho viável para evitar a falência e preservar valor.

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