Anistia denunciará Milei à ONU por ataque a jornalistas
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A Anistia Internacional informou que vai denunciar o presidente argentino, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por hostilidade a jornalistas. O anúncio ocorre após uma série de ataques verbais do mandatário contra profissionais da imprensa, incluindo xingamentos e ameaças de violência. A organização não governamental, que atua na defesa dos direitos humanos em mais de 150 países, incluindo o Brasil, classificou a conduta como uma escalada grave e inadmissível.

Milei xinga jornalistas e fala em fogueira

Na última semana, Milei xingou os profissionais que fizeram reportagens investigativas contra ele e afirmou que deveriam “queimar na fogueira”. O presidente citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio e os desqualificou, além de xingá-los. “Empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”, disse em discurso. Em seguida, declarou que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Na rede social X, o mandatário escreveu que foi alvo de “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista”. A publicação classifica ainda os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”. A Anistia Internacional considera que a expressão “queimar na fogueira” evoca violência extrema e constitui uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”.

Vídeo: @JMilei via X/Twitter

ONG aponta estigmatização e risco à democracia

Para a Anistia Internacional, as declarações violentas do presidente aprofundam o assédio à imprensa, colocam em risco aqueles que informam e deterioram as garantias do debate democrático. “A organização manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidade contra a imprensa e levará esses fatos às instâncias internacionais, no âmbito de seu trabalho de monitoramento e denúncia da deterioração da liberdade de expressão na Argentina”, acrescenta. A entidade ressaltou que as falas “não se limitam a questionar uma cobertura jornalística, mas individualizam e estigmatizam jornalistas”.

A diretora-executiva da ONG na Argentina, Mariela Belski, assinalou que, quando o presidente aponta publicamente jornalistas e utiliza imagens de violência para se referir àqueles que questionam a gestão dele, contribui para gerar um clima de intimidação que pode abrir caminho para novas agressões. “O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”, disse.

Milei lidera ranking de agressões à imprensa

O presidente Javier Milei foi identificado como autor de 119 desses episódios, o que o colocou como o principal agressor individual. O levantamento contabilizou ainda 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação. A Anistia Internacional reforça que a repetição dessas práticas pode gerar um efeito silenciador que vai além das pessoas diretamente atacadas: desestimula investigações, favorece a autocensura e empobrece a circulação de informações de interesse público.

“Investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”, sustentou a organização. A ONG relembra que em novembro de 2025, participou, juntamente com organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos de imprensa, de uma audiência sobre a situação da liberdade de expressão na CIDH. Na ocasião, foram denunciados o aumento das agressões, a violência on-line, o assédio judicial e os ataques durante a cobertura de protestos, em um contexto de expansão de práticas autoritárias.

CIDH já solicitou informações à Argentina

A CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar uma visita ao país. A CIDH é uma instituição judicial autônoma da Organização dos Estados Americanos (OEA), que tem o objetivo de aplicar e interpretar a Convenção Americana – também chamada de Pacto de San José da Costa Rica – que consiste em um tratado internacional sobre direitos e liberdades. A Anistia Internacional não detalhou o cronograma para a apresentação formal da denúncia, mas afirmou que levará os fatos às instâncias internacionais em seu trabalho de monitoramento.

A denúncia à ONU e à CIDH representa um novo capítulo na tensão entre o governo argentino e a imprensa. A organização não especificou quais mecanismos serão acionados, mas destacou que a escalada de hostilidade exige resposta das instituições internacionais de direitos humanos. A fonte não detalhou se haverá pedido de medidas cautelares ou outras providências urgentes.

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