Em 2026, a Kiddle Pass, startup criada por Fernanda Sotelo a partir de uma inquietação pessoal, está entre as finalistas do Open Innovation Awards. A conquista levou a fundadora a refletir sobre a foto de sua infância no Capão Redondo e a questionar: antes de preparar o profissional do futuro, o que estamos oferecendo à criança de hoje?

Uma inquietação que virou negócio

Fernanda Sotelo, founder & Chief Experience Officer na Kiddle Pass, conta que sua trajetória começou muito antes do empreendedorismo. Foi no Capão Redondo que ela compreendeu o impacto de uma oportunidade na infância. Segundo ela, uma oportunidade não determina quem uma criança será, mas pode ampliar enormemente aquilo que ela consegue imaginar que pode ser.

Essa percepção a acompanhou até a criação da Kiddle Pass, empresa que hoje concorre a um prêmio de inovação aberta. A premiação, no entanto, serviu mais como um convite à reflexão do que como um marco de sucesso pessoal. A fundadora afirma que voltou a pensar menos sobre sua trajetória e mais sobre a forma como escolhemos investir no futuro.

Investir na base é estratégia de longo prazo

Para Fernanda, investir na infância não deveria ser entendido apenas como uma política educacional ou social. É também uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo. A afirmação sugere que o cuidado com as crianças de hoje é um pilar para a construção de uma sociedade mais preparada para os desafios futuros.

A autora não detalhou quais seriam as políticas ou ações concretas para esse investimento, mas defende que a visão de longo prazo precisa estar no centro das decisões. A transição para o próximo tópico mostra como a tecnologia adiciona complexidade a esse cenário.

Desigualdade digital: o abismo do acesso

A tecnologia adicionou uma nova camada a esse desafio. Dados da TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que 82% das crianças e adolescentes das classes D e E que usam a internet acessam-na exclusivamente pelo celular. Nas classes A e B, esse percentual é de 29%. Estar conectado não significa ter acesso às mesmas oportunidades.

Os números revelam uma diferença significativa na forma como diferentes grupos socioeconômicos experimentam o mundo digital. Enquanto as classes mais altas têm maior diversidade de dispositivos, as classes mais baixas dependem quase exclusivamente do celular. Essa disparidade pode limitar o tipo de conteúdo acessado e as possibilidades de aprendizado e criação.

O que a criança encontra na tela?

Talvez essa seja uma das discussões mais importantes sobre infância digital daqui para frente. Não apenas quanto tempo uma criança passa diante de uma tela, mas o que ela encontra quando chega lá e, principalmente, o que aquele tempo permite que ela descubra, aprenda e crie.

Fernanda Sotelo propõe que o foco do debate deve se deslocar da quantidade de tempo para a qualidade da experiência digital. A pergunta central é se o ambiente online está ampliando horizontes ou apenas reproduzindo limitações. A resposta a essa pergunta pode definir o futuro de milhões de crianças.

Da periferia para a inovação

A trajetória de Fernanda Sotelo, do Capão Redondo à finalista de um prêmio de inovação, ilustra o potencial transformador de uma oportunidade na infância. Ela mesma reconhece que não imaginava empreender nessa área quando era criança. No entanto, a experiência vivida na periferia plantou a semente da inquietação que hoje move sua empresa.

A história pessoal da fundadora serve como exemplo do que pode acontecer quando uma criança tem acesso a oportunidades que ampliam seu repertório. A Kiddle Pass, nesse sentido, pode ser vista como uma tentativa de oferecer a outras crianças o que ela própria encontrou em seu caminho. A fonte não detalhou o funcionamento da empresa, mas o contexto sugere que ela atua na área de educação ou tecnologia para infância.

Um chamado à reflexão coletiva

A pergunta que dá título à reflexão de Fernanda Sotelo ecoa para além de sua experiência pessoal. Antes de preparar o profissional do futuro, o que estamos oferecendo à criança de hoje? A resposta, segundo a autora, passa por reconhecer que o investimento na infância é uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, e não apenas uma política social.

Os dados da TIC Kids Online Brasil 2025 reforçam a urgência de se pensar a infância digital de forma inclusiva. A desigualdade no acesso à internet é um reflexo das desigualdades estruturais da sociedade brasileira. Enfrentar esse desafio exige ações coordenadas entre governos, empresas e sociedade civil.

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