Uma pesquisa conduzida na Universidade de São Paulo (USP) identificou uma possível relação entre a violência urbana e o aumento da obesidade entre adultos na capital paulista. O estudo, publicado na revista internacional BMC Public Health, analisou dados coletados em dois períodos distintos e apontou que moradores de bairros com violência persistentemente alta têm maior probabilidade de desenvolver a doença. Os resultados sugerem que a insegurança pode influenciar comportamentos relacionados à saúde, como a prática de atividades físicas ao ar livre.
Metodologia longitudinal acompanhou adultos por anos
O trabalho teve como base uma coleta de dados longitudinal denominada ISA – Physical Activity and Environment, realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Atividade Física e Exercício (Gepaf) da USP. As informações foram obtidas por meio de entrevistas domiciliares em dois momentos: entre 2014 e 2015 e entre 2020 e 2021. Durante a pandemia de covid-19, as entrevistas passaram a ser feitas por telefone, conforme detalhado pelos pesquisadores.
Ao longo do período analisado, aproximadamente 15% dos participantes desenvolveram obesidade. O estudo comparou a incidência da doença entre pessoas que viviam em áreas com diferentes níveis de violência. A fonte não detalhou o número total de participantes, mas os achados indicam uma associação relevante entre o ambiente urbano e a saúde metabólica.
Incidência de obesidade é 2,77 vezes maior
O principal resultado da pesquisa mostrou que, nas situações onde a violência era persistentemente alta, a incidência de obesidade foi 2,77 vezes maior do que naquelas que permaneciam em ambientes de menor violência. Para os autores, esse foi o grande achado do estudo e se mostrou estatisticamente muito maior do que o esperado. A magnitude da associação chamou a atenção da equipe, que buscou explicações na literatura científica.
Após a análise dos resultados, os pesquisadores consultaram estudos internacionais sobre a temática. “O que a gente começou a perceber analisando esses estudos é que a insegurança, por exemplo, pode fazer com que as pessoas caminhem menos. Elas evitam parques, praças e atividades ao ar livre pela sensação de insegurança”, afirmou um dos autores, identificado apenas como Nery. Essa é uma das justificativas apontadas para a relação observada.
Segregação socioeconômica e racial como pano de fundo
No artigo, os aspectos relacionados à criminalidade e à violência são considerados fatores ligados à segregação socioeconômica e racial. Populações socialmente vulneráveis têm maior probabilidade de estarem expostas à violência urbana, o que pode agravar as desigualdades em saúde. O estudo propõe que são necessárias mais pesquisas para explorar essas relações e compreender os mecanismos envolvidos.
Os autores destacam que a violência não afeta apenas a segurança física, mas também pode restringir o acesso a espaços públicos e a oportunidades de lazer ativo. Essa limitação, por sua vez, pode contribuir para o ganho de peso e o desenvolvimento de doenças crônicas. A pesquisa reforça a importância de políticas públicas que considerem o ambiente urbano como determinante da saúde.
Implicações para políticas públicas e saúde
Os resultados trazem evidências de que intervenções voltadas à redução da violência podem ter impactos positivos na prevenção da obesidade. Melhorar a segurança nos bairros, iluminar ruas e revitalizar espaços públicos são medidas que podem incentivar a prática de exercícios e a adoção de hábitos saudáveis. O estudo não apresenta recomendações específicas, mas sugere que a integração entre segurança pública e saúde é fundamental.
A pesquisa foi divulgada originalmente no portal Medicina S/A, que destacou a relevância dos achados para o contexto brasileiro. A fonte não detalhou os próximos passos da equipe, mas indicou que novas investigações são necessárias para confirmar a relação causal e explorar outros fatores mediadores. Enquanto isso, os dados já disponíveis apontam para a necessidade de olhar a obesidade como um problema multifatorial, influenciado também pelo território.
Fonte
- medicinasa.com.br
- pesquisa (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
