A Pinacoteca de São Paulo inaugura a exposição “Armadilha Moderna”, dedicada ao pintor paraense Ismael Nery. Com cerca de 230 obras, a mostra convida o público a olhar para além da aura de artista misterioso, religioso e atormentado que marcou sua trajetória. A curadoria é de Yuri Quevedo, que propõe revisar os rótulos frequentemente associados ao artista, como surrealismo e cubismo.
Biografia dramática e pedido não atendido
Ismael Nery previu a própria morte, aos 33 anos, e pediu ao amigo Murilo Mendes que destruísse suas obras. O poeta não atendeu ao pedido, mas ajudou a construir a imagem de um artista misterioso, religioso e atormentado. Nery inventa para si uma cena tão cheia de drama quanto a própria biografia construída em torno dele. Previu a própria morte, aos 33 anos. Pediu ao amigo, poeta e principal interlocutor, Murilo Mendes, que destruísse todas as suas obras quando morresse — o que, claro, ele não fez.
Esses elementos ajudaram a construir a figura do artista misterioso, religioso e atormentado.
Mostra revê rótulos e classificação
É para além dessa aura que a mostra “Armadilha Moderna”, na Pinacoteca de São Paulo, convida a olhar. Com cerca de 230 obras, a exposição revê os rótulos que marcaram a trajetória do pintor paraense, frequentemente associado ao surrealismo e ao cubismo. A mostra reúne cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas e retratos. Boa parte dessas obras o artista retratou a si ou episódios de sua história.
Corpo como laboratório da modernidade
Para o curador Yuri Quevedo, essas classificações limitam a compreensão de uma produção em que o corpo se torna laboratório da modernidade. Em autorretratos, figuras de anatomia exposta e fusões entre masculino e feminino, Nery investiga religião, erotismo e finitude. “Em vez de olhar para a modernidade externamente, ele faz do corpo um laboratório, em que vai testar e ensaiar o que é o corpo e o indivíduo moderno”, explica o curador. “Ele estava olhando esses corpos abertos”, diz o curador.
“Eu tenho usado essa ideia de que o corpo é o laboratório da modernidade dele, porque, de fato, ele faz do corpo um experimento.”
Questionando o desinteresse pelo Brasil
A mostra também questiona seu suposto desinteresse pelo Brasil. Em “Autorretrato Rio/Paris”, o artista se coloca entre os dois países, de costas para a Torre Eiffel. “Ele está o tempo todo confrontando visões de modernidade”, diz Quevedo ao NeoFeed.
Autorreferência e narrativa pessoal
“No cais de Belém, três mulheres, uma com um corpo de homem, dançavam e rodavam um homem de barba, gritando e dizendo o meu nome. Uma delas mostrava um lenço com o meu monograma desenhado a sangue. No Chais, uma tempestade logo depois afundou um navio. Eu estava escondido no corpo de uma âncora.” Assim escreveu o artista Ismael Nery sobre si próprio no desenho História de I. Nery, presente na mostra Armadilha Moderna, na Pinacoteca de São Paulo. Em compensação, o trabalho de Nery é bastante autorreferente.
É difícil imaginar um pintor que, na mesma época, tenha se autorretratado tantas vezes quanto ele.
Formação e influências europeias
Nascido em Belém, em 1900, Nery mudou-se com a família, aos 9 anos, para o Rio de Janeiro. Aos 17, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1920, complementou a formação na Académie Julian, em Paris. Na Europa, entrou em contato com expoentes do surrealismo e do cubismo, como André Breton, Marcel Noll e Marc Chagall, mas desenvolveu uma poética própria.
Fusão de gêneros e colaboração
“Ele não trabalha o binarismo. Ele pensa na fusão do homem e da mulher como uma coisa só”, aponta o curador. A figura de Adalgisa não aparece simplesmente como um modelo diante do qual o artista procura o belo. “Na pintura vira uma colaboração”, afirma. O artista buscava um “corpo pleno”, em que atributos femininos fossem constitutivos dos corpos fundidos.
