Onda privatista perde força entre candidatos e estatais
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Passados mais de dez anos do escândalo da Lava Jato, quando defender privatizações virou algo “pop” para parte do eleitorado, os candidatos parecem não fazer questão de se posicionar a favor da venda de estatais. A constatação surge em meio às campanhas eleitorais, nas quais o tema praticamente desapareceu dos discursos. Segundo analistas e especialistas que conversaram com o Money Times, as privatizações perderam importância no discurso eleitoral. Hoje, o brasileiro tem outras questões que lhe tiram o sono: segurança pública, por exemplo, ou mesmo a questão do Judiciário.

Por que candidatos evitam falar em privatização

O economista Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), explica que “se aprendeu que o tema não traz votos (ou, pelo menos, a quantidade de votos que atrai é imensamente menor à que é retirada do candidato) e as eleições se tornaram mais disputa de narrativas do que de propostas”. Uma fonte da área política de um grande banco afirmou ao Money Times que os candidatos deixaram de falar sobre isso “porque não pega muito” no eleitorado. Apesar disso, o apoio às privatizações ainda é grande.

Segundo pesquisa do site Poder360, o apoio à venda total ou parcial de empresas estatais atingiu 54%. Trata-se do maior percentual já registrado pelo PoderData desde 2021. A questão, segundo a fonte, é que a privatização tem apoio, mas não apelo. “Ninguém vai lutar por privatização.”

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Estratégia de Bolsonaro: evitar polêmicas

Em conversas reservadas com a campanha de Bolsonaro, a ideia é: sem polêmicas — o que inclui evitar defender de forma enfática a venda de estatais. “Eles tentam sempre ficar ali, em cima do muro, com medo de ter algum tipo de rejeição, porque querem marcar vários tipos de público.” Já o Banco do Brasil viu seu lucro derreter 60% nos últimos balanços, mas mais por questões setoriais do que por ações do governo federal, com o agronegócio vivendo um dos piores momentos da história na área de crédito.

Daniella Marques, ex-assessora especial do Ministério da Economia e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, atualmente na campanha de Flávio, “puxou a sardinha” para seu lado ao ser indagada sobre o tema da privatização durante um evento do Grupo Esfera. Segundo ela, até os Correios, que acumulam rombos bilionários, perderam a janela de serem privatizados. Para Daniella, porém, “mais de 20 estatais” poderiam entrar na mira do governo e o “Banco do Brasil poderia [ser privatizado]”, pois negocia abaixo de uma vez seu patrimônio.

Zema é exceção, mas tem 1%

O único que se mantém com seu discurso privatista é Romeu Zema, mas, segundo as pesquisas eleitorais mencionadas no contexto da campanha, marcava 1% das intenções de voto. Na bolsa, ainda restam algumas estatais estaduais — entre elas, Banrisul (Rio Grande do Sul), Sanepar (Paraná) e Cemig (Minas Gerais). Em todos os casos, candidatos de direita lideram as pesquisas, mas nenhum se comprometeu a privatizar as companhias.

O caso mais enfático, talvez, tenha sido o do senador e candidato pelo PL, Sergio Moro, que não só não se comprometeu a vender a empresa de saneamento do Paraná, como criticou a venda da Copel. “Não existe nenhum compromisso com privatização em relação à Sanepar, mas o choque de gestão é necessário […] A privatização serve para ter um serviço mais eficiente. O serviço que a Copel hoje presta aos paranaenses não é mais eficiente”, disse ele.

Sanepar: chance baixa, mas não descartada

Mesmo assim, Conde, da Levante, acredita que, entre todas as empresas que ainda restam na bolsa, a Sanepar é a que tem maior probabilidade de ser vendida. Em relatório, porém, a XP vê como difícil uma venda da empresa de saneamento.

Os analistas listam três pontos: o Paraná é possivelmente um dos Estados com as melhores contas públicas do Brasil, e sua participação na SAPR equivale a apenas cerca de R$ 2 bilhões; o Estado decidiu avançar na universalização dos serviços de esgotamento sanitário por meio de PPPs, em conjunto com o atual programa de investimentos que a Sanepar espera executar; e a população percebe a Sanepar como uma boa prestadora de serviços.

“Ainda não descartamos totalmente a possibilidade de uma privatização avançar, mas as chances são baixas e o timing permanece bastante incerto”, diz o relatório da XP.

Cemig: candidatos evitam compromisso

Em Minas, o candidato a governador Cleitinho (Republicanos) disse, em debate na TV Bandeirantes, que não tem vontade de privatizar a empresa, citando o lucro de R$ 5 bilhões. Entretanto, criticou o fato de a companhia ter “virado cabide de emprego e negociação política”. Já o atual governador mineiro, Mateus Simões (PSD), afirmou que não pretende discutir a privatização. Ele também admitiu que uma eventual troca do presidente da Cemig poderia ocorrer no contexto de negociações políticas.

A falta de compromisso dos candidatos com a venda das estatais estaduais reflete o cenário nacional, no qual o tema perdeu força eleitoral.

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