Um estudo com 412 portadores de variantes patogênicas nos genes BRCA1 e BRCA2 revelou que o câncer tende a surgir mais cedo em indivíduos com alterações no BRCA1. A mediana de idade no diagnóstico do primeiro tumor foi de 39 anos para BRCA1, contra 47 anos para BRCA2. Os dados reforçam a importância de estratégias de rastreamento diferenciadas conforme o gene afetado.
Dos 412 participantes, 257 (62,4%) tinham registro de pelo menos um diagnóstico de câncer, totalizando 336 tumores primários. Entre os que desenvolveram câncer, aproximadamente um quarto (24,9%) apresentou dois ou mais tumores primários ao longo do acompanhamento. Isso indica uma necessidade de vigilância contínua nessa população.
Mama lidera tumores, seguida por ovário
O câncer de mama foi o tumor mais frequente na população estudada, representando 66,7% dos 336 tumores registrados. Em seguida, vieram os tumores de ovário e trompa de Falópio, que corresponderam a 14,9%. Também foram identificados casos de câncer de próstata, pulmão, pâncreas, tireoide, melanoma, entre outros.
Essa distribuição confirma o amplo espectro de neoplasias associadas às variantes BRCA, indo além dos cânceres tradicionalmente ligados a esses genes. A diversidade de tumores observada sugere que o acompanhamento deve ser multidisciplinar.
Diferença de idade também no segundo tumor
Um dos principais achados foi a diferença na idade de aparecimento dos tumores. Entre os portadores de BRCA1, a mediana de idade no diagnóstico do primeiro câncer foi de 39 anos, enquanto entre os portadores de BRCA2 foi de 47 anos. A diferença também foi observada no segundo câncer primário: 43 anos para BRCA1 e 62 anos para BRCA2.
Esses números mostram que a antecipação do câncer em BRCA1 não se limita ao primeiro tumor. Mesmo para tumores subsequentes, os portadores de BRCA1 tendem a ser diagnosticados mais jovens. Isso pode influenciar o calendário de exames preventivos.
Homens com BRCA2 têm perfil próprio
O estudo também evidencia que o impacto das alterações em BRCA não se restringe ao câncer de mama feminino. Entre os homens portadores de variantes em BRCA2, câncer de mama masculino e câncer de próstata foram os tumores mais frequentes, cada um representando 30,4% dos tumores registrados neste grupo. Também foram observados casos de câncer de pulmão e pâncreas.
Esses achados reforçam a necessidade de incluir homens em programas de aconselhamento genético e rastreamento. A predominância de câncer de próstata e mama masculina em BRCA2 sugere protocolos específicos para esse subgrupo.
Variantes recorrentes em BRCA1
Outro aspecto relevante da pesquisa foi a identificação de variantes genéticas recorrentes. Entre os portadores de BRCA1 que tinham histórico de câncer, duas variantes — c.5266dupC e c.3331_3334del — corresponderam, juntas, a 32,1% dos registros de variantes. No BRCA2, por outro lado, foi observada uma distribuição mais heterogênea, sem uma única variante predominante.
Essa concentração de variantes em BRCA1 pode ter implicações práticas. Em contextos com recursos limitados, testes direcionados para essas variantes poderiam ser considerados, mas com ressalvas.
Sequenciamento amplo segue essencial
Segundo o estudo, esse padrão pode ter implicações para estratégias de investigação genética em determinados contextos, especialmente em regiões onde o acesso ao sequenciamento genético abrangente ainda é desigual. Os autores, entretanto, ressaltam que estratégias baseadas em variantes recorrentes não devem substituir o sequenciamento amplo quando este for clinicamente indicado.
A recomendação é clara: a busca por variantes comuns não elimina a necessidade de uma análise genética completa. O sequenciamento amplo continua sendo o padrão-ouro para identificar todas as alterações possíveis.
Abordagem longitudinal é necessária
A identificação de variantes patogênicas em BRCA1 e BRCA2 pode ter impacto não apenas na avaliação do risco de desenvolvimento de novos tumores, mas também na definição de estratégias de acompanhamento e prevenção. O estudo destaca a necessidade de uma abordagem longitudinal, especialmente porque quase um quarto dos pacientes que desenvolveram câncer apresentou mais de um tumor primário.
Portanto, o seguimento desses pacientes deve ser contínuo e adaptado ao gene específico. A antecipação do câncer em BRCA1 e o perfil distinto de BRCA2 exigem condutas personalizadas para melhorar os desfechos clínicos.
