Especialistas reunidos em painel sobre saúde digital apontaram que a jornada híbrida — combinação de atendimento presencial e virtual — esbarra em desafios estruturais de remuneração e interoperabilidade. Participaram do debate Ana Maria Malik, professora da FGV-EAESP; Daniel Greca, diretor de Saúde Populacional e Inovação e diretor de Unidade de Negócio do Hospital Sírio-Libanês; e Naiana Cunha, diretora executiva de Governança Clínica da Amil. O encontro ocorreu em um contexto de crescente adoção de tecnologias na saúde, mas com barreiras que dificultam a consolidação do modelo híbrido.
Um dos desafios está no descompasso entre a experiência digital esperada pelos pacientes e a preparação dos profissionais para atuar em um modelo híbrido. Especialmente entre os mais jovens, a conveniência oferecida por serviços digitais de outros setores influencia a expectativa em relação à saúde. A adaptação, porém, não é homogênea. Pacientes mais velhos podem enfrentar dificuldades com recursos tecnológicos, enquanto profissionais formados em um modelo predominantemente presencial precisam desenvolver novas competências para incorporar ferramentas digitais à prática.
Essa lacuna de letramento digital em diferentes faixas etárias e categorias profissionais exige estratégias de capacitação e suporte contínuo.
Modelos de pagamento travam avanço híbrido
Naiana destacou que essa transição também esbarra nos modelos de trabalho e remuneração construídos em torno do atendimento presencial. A lógica predominante de pagamento por procedimento ou consulta não incentiva a adoção de tecnologias que poderiam reduzir custos ou melhorar desfechos clínicos. Para Greca, a jornada híbrida exige repensar a forma como os recursos circulam no sistema.
“Se a gente não repensa o modelo de pagamento, como o dinheiro circula, a gente sempre vai achar que qualquer coisa a mais numa jornada híbrida, por exemplo, é um sinistro a mais”, afirmou. Essa visão reflete a resistência de operadoras e prestadores em investir em infraestrutura digital sem um retorno financeiro claro no curto prazo.
Modelos como a capitação, associados a indicadores de desempenho e resultados, podem ampliar a flexibilidade para definir a estratégia de cuidado. Em vez de remunerar cada contato isoladamente, a lógica considera o acompanhamento da população e os resultados alcançados. “A hora que você vai inserir a tecnologia ou uma linha de cuidado diferente, usando a tecnologia e fazendo o híbrido, é um convite para você repensar aquilo que você quer entregar”, afirmou. Nesse cenário, a tecnologia aparece como ferramenta para reorganizar o cuidado e tornar a assistência mais assertiva.
“Como é que a gente usa a tecnologia ali para ser mais assertivo no cuidado adequado para cada paciente, trazendo o médico para um cuidado mais humanizado, eh mas se a gente não usar isso tudo, fica insustentável.”
Interoperabilidade limita coordenação do cuidado
Outro desafio é a permanência do paciente em uma mesma operadora ou rede. A mudança de vínculo pode interromper estratégias de acompanhamento construídas ao longo do tempo. “Qual é o momento que a gente gerencia a vida desse paciente? Porque para trazer sustentabilidade eu não posso achar que eu vou gerenciar este paciente desde o início da vida, porque ele não fica comigo esse tempo todo.” A questão se conecta diretamente à interoperabilidade entre os sistemas de informação.
A falta de interoperabilidade limita a coordenação do cuidado e a continuidade das informações quando o paciente circula entre diferentes instituições e operadoras.
Greca citou Israel como exemplo de um sistema em que quatro operadoras estão integradas e há mecanismos de portabilidade de dados. Para ele, no Brasil, estruturas que favoreçam a interoperabilidade são necessárias para que diferentes atores consigam atuar de forma coordenada.
“Se a gente não tiver algo no force a trabalhar como sistema e se tiver estrutura como de interoperabilidade para que os dados realmente transfigem, qualquer esforço que pense como sistema vai vai bater numa parede e não vai conseguir escalar.” Mais do que uma questão tecnológica, a interoperabilidade interfere na capacidade de compartilhar informações clínicas e evitar a fragmentação da jornada quando diferentes organizações participam do cuidado.
Equilíbrio entre paciente, ciência e pagador
A sustentabilidade da saúde populacional também envolve conciliar interesses distintos. Greca descreveu esse cenário como um “triângulo estressadíssimo”, formado por paciente, ciência e pagador. Enquanto o paciente busca conveniência, acesso e disponibilidade, a ciência estabelece evidências e diretrizes para orientar as decisões clínicas. O pagador, por sua vez, precisa financiar o cuidado e preservar a sustentabilidade do sistema. Nesse equilíbrio, a coordenação do cuidado ganha importância.
Greca explicou que o modelo adotado para quase 800 mil pessoas elegíveis tem como base a atenção primária e a coordenação da jornada, com uma perspectiva de longo prazo para empregadores e operadoras.
Os especialistas não apresentaram soluções definitivas, mas reforçaram a urgência de redesenhar incentivos e investir em infraestrutura de dados. A jornada híbrida na saúde, para se consolidar, dependerá de um esforço conjunto entre reguladores, operadoras, prestadores e pacientes. A fonte não detalhou prazos ou metas específicas para a implementação dessas mudanças.
