A infraestrutura da inteligência artificial deixou de ser um tema restrito a engenheiros de software e passou a ocupar o centro do debate econômico global. Segundo Franklin Lacerda, economista e CEO da Análise Econômica, o algoritmo pode estar na nuvem, mas a nuvem precisa estar conectada à tomada. Para entender a dimensão dessa transformação, vale consultar o relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia.
O documento revela que o consumo de eletricidade por data centers, criptomoedas e inteligência artificial pode mais que dobrar até 2026. Isso significa que a infraestrutura da inteligência artificial começa a adquirir dimensão macroeconômica. Não estamos falando apenas de um novo software, mas de uma nova fronteira de formação de capital capaz de movimentar construção, energia, semicondutores, crédito e cadeias produtivas globais.
Energia como base da nova economia digital
Essa mudança também ajuda a compreender a nova geografia da inovação. Se a infraestrutura da inteligência artificial exige capacidade computacional em grande escala, nem todos os lugares conseguem oferecê-la. A concentração de recursos é um dos traços mais marcantes desse cenário.
Segundo a OCDE, China, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos concentram quase 90% da capacidade mundial de fabricação de wafers, enquanto mais de 90% dos chips lógicos de fronteira são produzidos por uma única empresa, a TSMC, em Taiwan. A infraestrutura da inteligência artificial revela, assim, uma aparente contradição: nunca tivemos uma tecnologia tão fácil de acessar pelo usuário final e, ao mesmo tempo, tão dependente de uma infraestrutura altamente concentrada, intensiva em capital e geograficamente específica.
O retorno da infraestrutura física
Isso muda a própria economia da inovação. Durante parte das últimas décadas, a transformação digital alimentou a ideia de que distância, recursos naturais e infraestrutura física perderiam importância diante do software e dos ativos intangíveis. A infraestrutura da inteligência artificial aponta na direção contrária.
Sem energia não há capacidade computacional; sem capacidade computacional não há treinamento de modelos; sem chips avançados não há escala; sem redes elétricas e de telecomunicações não há data centers. É por isso que renováveis, gás, nuclear, armazenamento, linhas de transmissão e semicondutores passaram a integrar a mesma discussão que antes envolvia principalmente software e venture capital.
Brasil no mapa da infraestrutura de IA
O Brasil começa a aparecer nesse mapa, ainda que de forma incipiente. Dependendo do cenário, data centers, hidrogênio e eletromobilidade podem representar conjuntamente entre 1,2% e 12,9% da demanda brasileira de eletricidade em 2035. O tema já deixou, portanto, de ser apenas uma discussão tecnológica para se tornar também um problema de planejamento energético.
O movimento ganhou uma dimensão adicional em setembro de 2026, quando o Congresso aprovou o Redata, regime que prevê incentivos tributários para estimular data centers voltados, entre outras atividades, à computação em nuvem e à inteligência artificial. Em 4 de setembro, o projeto foi encaminhado à sanção presidencial.
Capturar valor além da energia
A política pode aumentar a capacidade do Brasil de capturar parte da infraestrutura da inteligência artificial, mas abre uma discussão mais importante: qual parcela do valor dessa cadeia permanecerá no país? Atrair servidores é diferente de desenvolver chips; oferecer energia é diferente de controlar modelos; hospedar dados é diferente de produzir tecnologia.
O Brasil tem uma vantagem que se tornou mais valiosa exatamente porque a IA passou a depender intensamente de eletricidade. O desafio agora é transformar essa vantagem energética em capacidade tecnológica, fornecedores, pesquisa, capital humano e inovação local. Na nova geografia da inovação, talvez não seja necessário vencer todas as corridas. Mas é fundamental escolher em quais partes da cadeia queremos deixar de ser apenas fornecedores de recursos para começar a capturar conhecimento, produtividade e valor.
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Fonte
- startups.com.br
- o consumo de eletricidade dos data centers no mundo deve mais que dobrar até 203 (www.iea.org)
- data centers poderão exigir US$31,6 trilhões em investimentos acumulados até 205 (www.pwc.com)
- s cinco maiores empresas globais de tecnologia deverão gastar mais de US$1 trilh (www.bis.org)
- regime que prevê incentivos tributários para estimular data centers (www25.senado.leg.br)
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