Os apelos de grandes executivos de inteligência artificial para pisar no freio no desenvolvimento da tecnologia devem pressionar as ações de fabricantes de chips e da cadeia de suprimentos no curto prazo. Fabricantes de semicondutores e outros papéis ligados à IA devem ser o principal alvo de uma onda de vendas na abertura dos mercados nesta segunda-feira, enquanto investidores medem se uma postura mais cautelosa no avanço dos modelos mais complexos afetará os lucros corporativos.
Executivos pedem cautela no desenvolvimento
O tom de cautela ganhou força no setor após o CEO da Anthropic, Dario Amodei, afirmar no sábado que a empresa adotará novas travas de segurança — incluindo auditorias independentes — e convocar a indústria a desacelerar a corrida pelos modelos mais avançados. Sam Altman, CEO da OpenAI, apoiou a iniciativa, enquanto Elon Musk, da xAI, cravou no X que “Dario está certo”. A manifestação conjunta de líderes influentes adiciona um elemento de incerteza sobre o ritmo de inovação, o que pode levar investidores a reavaliar posições no setor.
Analistas minimizam impacto de longo prazo
Analistas de mercado, no entanto, apontam que o impacto a longo prazo tende a ser limitado, já que os aportes em infraestrutura computacional seguem a todo vapor. Para gestores como Gary Tan, da Allspring Global Investments em Singapura, o movimento dificilmente trará estragos duradouros para a tese de investimento no setor. “Isso pode gerar alguma pressão momentânea, mas não deve desarranjar o trade de IA no longo prazo”, avalia Tan.
“O desenvolvimento ainda está em fase inicial, e duvido que o restante do ecossistema aceite a hierarquia atual e resolva desacelerar enquanto a tecnologia evolui nessa velocidade.”
Big techs já enfrentam questionamentos
Os fortes aportes exigidos pela IA já vinham pesando sobre as big techs, à medida que o mercado questiona se os retornos operacionais justificam a escalada nos custos de infraestrutura. Essa lupa sobre os balanços deixou as empresas de múltiplos esticados vulneráveis a realizações de lucro a cada sinal de alta nos custos ou receitas abaixo do esperado.
O índice Nasdaq 100 já recuou mais de 4% em relação às máximas históricas de junho, enquanto o indicador que mede o desempenho do setor de chips nos EUA acumula queda de 14%. Na Ásia, as ações de tecnologia caem cerca de 8% no período. Em contrapartida, o S&P 500 e o índice global de ações da MSCI registram leve alta de 0,6%.
Ritmo cadenciado pode favorecer monetização
Há quem defenda, contudo, que um ritmo mais cadenciado pode jogar a favor do mercado, dando fôlego para as empresas monetizarem a estrutura que já está de pé. “O acordo entre os três CEOs para dosar o ritmo não altera o volume de capital direcionado para chips, energia e infraestrutura. Na verdade, ele estica o cronograma de desenvolvimento”, analisa Billy Leung, estrategista da Global X Management em Sydney.
“Se a comercialização e a adoção continuarem crescendo enquanto a chegada de novas funções dá uma trégua, o setor ganha espaço para migrar da fase de puro investimento para a fase de rentabilizar o que já foi construído.”
Cenário macro adiciona pressão
O apetite por papéis de tecnologia asiáticos também sofre com o cenário macroeconômico, diante das apostas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) subirá os juros nesta semana, elevando o custo global do capital. A avaliação das techs deve seguir sob escrutínio porque os preços atuais embutem não apenas uma demanda aquecida, mas um ritmo frenético de inovação, ressalta Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo Markets em Singapura.
A combinação de fatores setoriais e macroeconômicos pode manter a volatilidade no curto prazo, mas a visão predominante entre analistas é de que os fundamentos de longo prazo permanecem sólidos.
Fonte
- investnews.com.br
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